terça-feira, 26 de agosto de 2008

ARQUIVOS DE GUERRA

Terceira parte da série de reportagens baseada em documentos secretos da FEB revela que erro tático norte-americano quase provocou massacre de pracinhas em Monte Castelo
Depois da frustração, a conquista



O general João Batista Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), é chamado pelos chefes do Exército americano. Ele vai ao encontro acompanhado pelos generais Euclydes Zenóbio da Costa e Oswaldo Cordeiro de Faria. Horas antes, as tropas aliadas tinham sido repelidas pelos alemães, mais uma vez, em Monte Castelo, onde, por um erro tático dos Estados Unidos, quase todos os combatentes brasileiros foram massacrados pelos inimigos. A terceira parte da série de reportagens baseada em documentos secretos da FEB descreve esse tenso encontro e a reviravolta na sorte dos pracinhas brasileiros.

“Julga que, diante da missão dada à 1ª. DIE (Divisão de Infantaria Expedicionária), que a tropa brasileira tem capacidade ofensiva?”, perguntou o major-general Willis D. Crittenberger, comandante da IV Companhia do Exército americano. O clima fica tenso. “A pergunta foi cruel e decisiva para a sorte da divisão”, afirmou Mascarenhas de Moraes em um dos relatórios secretos sobre a guerra. O comandante brasileiro ainda fez menção de responder, mas Cordeiro de Farias e Zenóbio da Costa interviram e sugeriram que Crittenberger fizesse a pergunta por meio de ofício, o que aconteceu no dia seguinte. O documento foi respondido por nossos generais, que sugeriram uma série de mudanças na tática adotada pelos aliados.

A primeira batalha em Monte Castelo aconteceu em 24 de novembro de 1944. A FEB atuou com o Task Force 45 americano, mas não obteve êxito. “Começávamos a criar assim, a lenda sobre Monte Castelo, que atraía para si o prestígio de posição inexpugnável”, descreveu Mascarenhas de Moraes no relatório. No dia seguinte, um novo combate, outra derrota e cresce o estado de depressão das tropas, repelidas por tanques inimigos.

“Essas duas operações não foram convenientemente preparadas pelo comando americano, que na ansiedade de atacar de qualquer maneira não concedeu o tempo necessário para os reconhecimentos da infantaria e da artilharia”, diz o relatório de Mascarenhas de Moraes. A ação dos aliados fora decidida um mês antes, em uma reunião com todos os comandantes também em Passo de Futa para analisar os insucessos das investidas no eixo Florença-Bologna. A intenção era tomar a região até dezembro, antes da chegada do inverno.

O V Exército americano prometera aos brasileiros a entrega de armas uma semana depois, o que acabou não acontecendo no prazo. Os soldados da FEB não foram suficientemente treinados com os novos equipamentos, o que prejudicou as investidas. “A despeito de todas as providências tomadas, foi o armamento entregue com muito atraso, acarretando sérios prejuízos para a instrução dos 2º e 3º Escalões da FEB, cujas unidades, mal-instruídas e mal adaptadas, eram jogadas atropeladamente para a frente de combate, face a um inimigo que nos dominava por toda a parte, pela vista e pelo fogo”, narrou Mascarenhas de Moraes no relatório.

Ofensiva ampliada
Ao contrário do que esperava Mascarenhas de Moraes, porém, o IV Corpo do Exército americano aumentou a área de atuação da FEB. A ordem de ataque não era mais apenas Monte Castelo, mas também Belvedere e Monte Della Torraccia. “Para o comando brasileiro e sua tropa, a situação era bastante crítica em face da obstinação dos comandos americanos em retomar a ofensiva antes do rigor do inverno, que se aproximava”, descreve o general. Segundo o relatório da FEB, os pracinhas amarguravam uma situação moral e material desoladora. Enquanto parte dos soldados americanos descansava, os militares do Brasil estavam há 80 dias em contato direto com o inimigo.

A investida de 12 de dezembro foi a mais infrutífera. Chovia intensamente às 6h30, horário marcado para o começo dos combates. A falta de visibilidade atrapalhava qualquer avanço e não permitia a ajuda da Força Aérea. Meia hora antes, tiros americanos em um setor vizinho acabaram com o sigilo da missão. Além disso, uma ordem mal-interpretada por um escalão de apoio desorganizou os procedimentos traçados na noite anterior. “O ataque perdeu por completo a impulsão e foi dado por encerrado às 15h, sem alcançar os objetivos e com sensíveis perdas, cerca de 140 baixas, entre mortos e feridos”, diz o relatório. Apenas 4 mil dos 12 mil tiros programados foram disparados.

No relatório de Mascarenhas de Moraes, dois desabafos mostram o estado de espírito dos brasileiros naquele dia: “Foi certamente uma jornada infeliz, onde até os elementos conspiraram contra nós. A experiência na guerra é sempre uma fonte de ensinamentos preciosos. Este combate de 12 de dezembro, certamente o mais espetacular e esquisito insucesso sofrido por nós na Itália, foi prenhe de ensinamentos”. O fracasso também atingiu a tropa, que já estava cansada e sem proteção contra o frio que a cada dia se tornava mais rigoroso. O comandante sentiu, por diversas vezes, a iminência de ver sua divisão completamente destruída, como aconteceu com os portugueses na 1ª Guerra.

Recomposição de forças
Foi justamente devido àquela reunião da noite de 12 de dezembro que a situação dos brasileiros começava a reverter. No ofício enviado ao general Mark Clark, comandante do V Exército, Mascarenhas de Moraes reclamou ao militar dos Estados Unidos da precipitação com que a FEB estava sendo usada. Além disso, pediu 10 dias para reajustar as tropas, além da redução da área de atuação da FEB. Clark, a quem os brasileiros eram subordinados, atendeu os pedidos do chefe da FEB.

No final de dezembro começa a nevar forte na região. Apesar da previsão de reconhecimentos agressivos por parte do inimigo, não houve qualquer ofensiva. A idéia era manter as posições atuais. Até fevereiro de 1945, poucos combates foram realizados pelos brasileiros e, mesmo assim, vários alemães foram aprisionados. O inimigo, entretanto, continuava a atacar. Porém, havia uma determinação para economizar munição, principalmente de canhões e morteiros.

Em 8 de fevereiro, em uma reunião entre os comandantes, são montados os novos planos para outra ofensiva sobre Monte Castelo. Ao contrário do ataque de 12 de dezembro, desta vez as tropas brasileiras atuaram em conjunto com uma divisão de montanha americana. A missão era atacar em direção a Belvedere e Torraccia. A FEB deveria manter também a guarda de uma área conquistada de 18km, além de conquistar Monte Castelo.

A mais importante vitória dos pracinhas aconteceu em 21 de fevereiro. A batalha começou às 5h30m e, às 17h20m, os alemães já estavam praticamente dominados. O objetivo era o mesmo, a tomada de Monte Castelo. O inimigo também queria o local. Porém, os meios eram outros, como definiu o comandante da FEB: “Tropa descansada, eficiente e de maior efetivo, artilharia mais abundante, aviação mais poderosa e com tempo favorável”, analisa Mascarenhas de Moraes em seu relatório.

Arquivos de Guerra: Ultimato e rendição

Depois de batalhas cruentas, a 148ª Divisão de Infantaria Alemã se rende aos pracinhas brasileiros. Dois generais e 15 mil soldados são feitos prisioneiros

Edson Luiz - Correio Braziliense

Comentários

Avalie esta notícia



Publicação: 26/08/2008 09:43 Atualização: 26/08/2008 09:45

Fornovo, Itália, 28 de abril de 1945

“Para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos incondicionalmente ao Comando das Tropas regulares do Exército Brasileiro que estão prontas para vos atacar. Estais completamente cercados e impossibilitados de qualquer retirada. Quem vos intima é o comandante da Vanguarda Brasileira que vos cerca. Aguardo, dentro de duas horas, a resposta do presente ultimatum.”

Surpreendida pelas tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), a 148ª Divisão de Infantaria alemã nunca imaginaria que faria parte da história militar brasileira. Pela primeira vez, o Exército aprisionou, de uma só vez, dois generais inimigos e cerca de 15 mil soldados. “Cercada inteiramente pelos elementos da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) na região de Caiano-Fornovo Di Taro-Felegara-Neviano, depois da derrota sofrida pela vanguarda em Collecchio, e vendo a impossibilidade de se reunir ao exército alemão em N do Pó, só lhe restava a rendição, que seu comando propôs ao comando brasileiro, após a intimação que lhe fora dirigida pelo Cmt do 6º. RI (Regimento de Infantaria)”, narra um dos relatórios secretos da FEB.

O ultimato às tropas alemãs foi dado pelo coronel Nelson de Mello que, usando um sacerdote católico voluntário para a missão, transmitiu a mensagem para o general alemão Otto Fretter Pico. À meia-noite do dia 29, três oficiais chefiados pelo major W. Kuner chegam ao 6º RI para negociar os termos da rendição. A conversa começa uma hora e meia depois, com o inimigo justificando os motivos que levaram Pico a uma decisão extrema: o esgotamento físico dos soldados, falta de combustível e de recursos para tratar 800 feridos.

“Posteriormente, viemos verificar a improcedência quase total da justificativa, uma vez que no copioso material apreendido existia muita munição e víveres e o número de doentes não atingia 150”, relatou o comandante da FEB, general João Batista Mascarenhas de Moraes. Kuner aceitou os termos fixados pelos brasileiros, mas pediu condescendência para seu comandante e para o general italiano Mário Carloni, da Divisão Bersaglieri Itália. As conversações estavam concluídas no final da madrugada.

Os primeiros prisioneiros chegaram por uma estrada próxima à Ponte Scodogna, em 13 ambulâncias com cerca de 80 inimigos feridos, alguns em estado grave. Uma hora depois, chegam mais oito ambulâncias, com 58 doentes. Os alemães ainda tentaram modificar o horário da entrega das armas, o que não foi aceito pelos brasileiros, segundo os relatórios secretos da FEB. “O fato de estarmos em contato com um inimigo astuto, que podia lançar mão do tempo para outros fins e a urgência que tínhamos em completar a tarefa da rendição para cumprir outras missões já em perspectiva, levaram o comando da divisão a não aceitar a sugestão”, relata o documento de Mascarenhas de Moraes.

Armas depostas
No final do dia, chegava a primeira coluna motorizada, que vinha por uma faixa indicada para a deposição das armas, na estrada 63 (Sarzana-Parma). Vestido de preto, tendo na lapela o desenho de uma caveira sobre duas tíbias cruzadas, símbolo de seu grupo, ele se apresentou como sendo um fregattenkapitan, capitão-de-fragata, e determinou que seus homens começassem a jogar suas armas, que eram lançadas a distância, para que pudessem ser danificadas.

Ao contrário do que dissera o major Kuner, durante as negociações da rendição, as tropas alemãs não pareciam em péssimas condições. Os soldados estavam com bom aspecto físico, bem alimentados e com fardamento e calçados bons. Logo em seguida, vieram a coluna com canhões e morteiros, um grupo de artilharia e uma coluna ligeira de munição. Todos os militares inimigos estavam com boa aparência e entusiasmados, inclusive cantando. O que mais surpreendeu as tropas brasileiras que faziam a guarda dos prisioneiros foi o material encontrado com os alemães. Além de armas, vários lotes de tecidos, como seda, algodão fino, linho e casimira.

O general italiano Mário Carloni se entregou no início da noite, junto com oficiais de seu estado-maior, que foram conduzidos ao comando brasileiro. A ele foi permitido o uso da arma pessoal e do acompanhamento do ajudante de ordens. Carloni foi transferido para Florença, onde o V Exército americano estava baseado, e onde suas regalias foram proibidas. Oficiais italianos entregaram aos brasileiros um cofre com 6 milhões de liras, dinheiro usado na campanha.

O primeiro general alemão
Os trabalhos seguiram até o início da madrugada do dia 30, com uma suspensão de quatro horas. O balanço do dia apontava que no posto de Caiano, onde o rendimento foi concretizado, havia sido realizada a prisão de 4,5 mil alemães e a apreensão de 1,7 mil viaturas e 80 canhões de vários calibres. A apresentação dos prisioneiros ocorreu pela manhã, mas somente no final da tarde é que o general Otto Fretter Pico, acompanhado por 31 oficiais de seu estado-maior, se entregou.

“Encerrava-se, assim, o capítulo da rendição da 148ª DI alemã e de alguns elementos da 90ª Divisão Panzer Granadier e da Divisão Bersaglieri Itália”, diz o relatório. O balanço final contabilizava 14.779 detidos, sendo 10.642 em Gaiano, 2.955 em Felegara e 1.200 em

Respício. Outros 300 militares se apresentaram posteriormente, totalizando 15.079 prisioneiros de guerra, que ajudaram a mudar a história militar brasileira.


TRECHO DE RELATO SECRETO DA FEB

“Cercada inteiramente pelos elementos da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) na região de Caiano-Fornovo Di Taro-Felegara-Neviano, depois da derrota sofrida pela vanguarda em Collecchio, e vendo a impossibilidade de se reunir ao exército alemão em N do Pó, só lhe restava a rendição, que seu comando propôs ao comando brasileiro, após a intimação que lhe fora dirigida pelo Cmt do 6º. RI (Regimento de Infantaria)”


Leia amanhã o sofrimento no Front

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

ARQUIVOS DE GUERRA

arquivos de guerra
Brava pobreza

Documentos do Exército revelam cruamente como pracinhas brasileiros atormentados por condições precárias de saúde e pelo analfabetismo agiram com heroísmo na 2ª Guerra Mundial

Edson Luiz
Da equipe do Correio

Quando decidiu ir à 2ª Guerra Mundial, o Brasil não conhecia as dificuldades que iria enfrentar. Não apenas à frente dos campos de batalha, mas já a partir da organização de seus contingentes – marcados pelas precárias condições de saúde e sociais de grande parte da tropa. Relatórios secretos dos generais João Batista Mascarenhas de Morais e Eurico Gaspar Dutra, obtidos pelo Correio, mostram a realidade do país entre 1942 e 1945, além do cotidiano dos nossos combatentes. Nos documentos, Mascarenhas de Morais, comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), relata a principal dificuldade enfrentada para tomar o Monte Castelo, um episódio que quase dizimou as tropas brasileiras, mas que acabou tornando-se um dos principais feitos da FEB na Itália.

Além disso, os relatórios mostram outro triunfo dos combatentes da FEB, que foi a rendição de 15 mil alemães, inclusive dois generais inimigos. O pracinha brasileiro, que saiu desacreditado do país, lutou como herói, mas teve que enfrentar as intempéries da Europa.

Enquanto os soldados lutavam na Itália, a situação política interna era grave. Dutra, então ministro da Guerra, apresentou ao presidente Getúlio Vargas o retrato sombrio do país, destacando a reação da população em torno dos problemas causados pelo conflito. Os principais fatos do período serão mostrados na série de reportagens que começa hoje e termina na quinta-feira, com uma apresentação da atual situação de quase abandono dos heróis brasileiros da 2ª Guerra Mundial .


Vila militar, Rio de Janeiro, março de 1844
Arquivo Historico do Exercito


Pouco mais de 5 mil homens estão reunidos e esperando o momento de embarcar para Nápoles. Ali está o perfil do brasileiro da época. Pelo menos, o da classe baixa. Pessoas pobres, com capacidade física precária, vindas de todas as regiões do país. E foi com esse contingente que o Brasil realizou seus principais feitos na Itália: a tomada de Monte Castelo e a prisão de 15 mil alemães, incluindo dois generais. Os relatórios secretos da guerra obtidos pelo Correio mostram que o país não estava preparado para a batalha.

Mesmo com uma população de 42 milhões de habitantes na época, o Brasil teve grandes dificuldades para recrutar o primeiro grupo que iria desembarcar na Europa. Precisou abrir mão de exigências sobre o perfil do efetivo ideal e amargou dificuldades ao preparar esses homens para enfrentar as tropas alemãs e italianas. Mas os relatos feitos pelo comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), general João Batista Mascarenhas de Morais, ressaltam que as dúvidas sobre o potencial combativo desses homens foram aos poucos sendo dissipados pela brava atuação em combate.

Para ir à guerra, segundo os relatórios, os soldados não poderiam ter pés chatos, sofrer de doenças venéreas, de problemas pulmonares e cardíacos e precisavam possuir pelo menos seis pares de dentes articulados. As dificuldades para selecionar homens com o perfil ideal ocorriam em todas as regiões do país, segundo Mascarenhas de Morais.

Ele observou que, para alcançar um número mínimo de recrutados para a guerra, foi necessário abrir mão de algumas exigências. "Estabelecendo as condições mínimas a satisfazer para integrar a FEB, diversas juntas de inspeção, em todas as regiões interessadas, começaram seu penoso trabalho, constatando-se desde logo, as maiores decepções, pela massa de homens, oficiais e praças que nem sequer se classificavam na categoria de 'normais' (a classificação exigida inicialmente era chamada de 'especial', com aptidões físicas excelentes, ficando os 'normais' impedidos de participar da guerra)", descreveu o comandante.

Em seu relatório secreto, Mascarenhas de Morais mostrou, por exemplo, que em São João Del Rey (MG), apenas um capitão, um sargento e um soldado conseguiram a classificação "especial", a exigida para compor a FEB. "O mesmo descalabro se assinalava em todas as outras unidades. Tão calamitosa apresentou -se a situação que a diretoria de saúde recebeu instruções para admitir, também, os homens da categoria 'normal'", escreveu o general. Até a exigência de homens com dente perfeitos, conforme a determinação norte-americana, foi reduzida. "Na organização dos três primeiros escalões que formaram o grosso da nossa 1ª DIE, não levamos em consideração a insuficiência dentária, porquanto não podíamos exigir muito, nesse sentido, da nossa gente, sabido que somente as pessoas de algum recurso, nos grandes centros, tratam dos dentes", afirmou o então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, em um outro relatório enviado ao presidente Getúlio Vargas, em 1944.

Dissabores e vexames
Porém, a redução das exigências traria "amargos dissabores e pesados vexames" na chegada ao exterior, como revelou Mascarenhas de Morais. Ao chegar em Nápoles, os 5 mil combatentes da FEB passaram por uma inspeção de saúde, tendo sido constatada a necessidade de se fazer 20 mil extrações. O relatório do ministro da Guerra complementa: "Das baixas verificadas na Itália ao chegar o 1º Escalão, 70% eram ocasionadas pelas doenças venéreas contraídas no Brasil". Ainda durante a viagem, foram descobertos casos de tuberculose e caxumba.

"Foi grande o trabalho de preparar homens para a guerra, a fim de que o Brasil cumprisse sua palavra empenhada. Os esforços despendidos por nós para preparar 5 mil homens é (sic) bem maior do que outra nação adiantada para organizar um contingente de 25 mil homens. A subnutrição, a falta de higiene e a sífilis, as três em ação combinada com o analfabetismo, são elementos negativantes na formação de qualquer tropa em terras brasileiras", relatou Dutra a Vargas.

O Norte do país, até então uma região desconhecida e com pouca ligação com os grandes centros, foi onde o recrutamento mostrou a realidade do povo brasileiro. De 3.715 homens inspecionados no Amazonas, Pará e nos então territórios do Acre, Rio Branco (hoje Roraima), Guaporé (RO) e Amapá, apenas 846 foram considerados aptos e 77,2% dispensados. "Isto confirma, claramente, o conceito de que o amazônida é um tipo fisicamente fraco já pela sua alimentação já mesmo pelas condições biogeográficas do imenso anfiteatro amazônico", escreveu Dutra.

Dúvidas
Mas não era apenas a Amazônia que apresentava os mais sérios problemas. Minas Gerais, mesmo sendo um dos estados mais importantes do país, teve 77% de seus 4.220 inspecionados considerados incapazes. O maior problema dos mineiros era a insuficiência de dentes. "Há necessidade de uma ação governamental incisiva para combater os males sociais que afligem nossa população: o analfabetismo, o baixo estalão de vida, a alimentação parca e pouco nutritiva, a higiene precária, a sífilis, a lepra e as doenças venéreas", recomendou Dutra a Vargas.

Por causa do perfil, Mascarenhas de Morais contou que havia uma incerteza quanto ao comportamento do soldado brasileiro na Itália, eliminada logo nas primeiras batalhas. "Sua ação em combate, em lugar de ser encarada como um simples dever de cidadão, servia para estimular-lhe a vaidade, tornando-o importante diante de si mesmo, e o levava a se vangloriar de seus feitos", escreveu o comandante da FEB.

Segundo ele, esse fenômeno, que deve ser levado à conta de uma educação falha, não diminuía a sua qualidade de combatente. "Pelo contrário, servia como um incentivo para o seu espírito de corpo, pois sua vaidade o levava a julgar o seu regimento como o melhor da divisão, assim como seu batalhão o melhor do regimento, e assim, sucessivamente, até garantir que o melhor dos batalhões era o seu", observou o general.



arquivos de guerra
Dividido, país entra no conflito

Depois do flerte com a Alemanha, Getúlio finalmente decide ir para a batalha ao lado dos Aliados

Edson Luiz
Da equipe do Correio
O Cruzeiro/EM
Getúlio e a mulher, Darcy, com ministros e autoridades no dia da declaração de guerra: pressão americana funcionou

Pressão do general dutra sobre Getúlio: ou Estados Unidos cedem ao Brasil ou o Brasil continua a negociar — inclusive armas — com o Reich alemão
Palácio do Catete, Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1942

O presidente Getúlio Vargas reúne seu ministério. Em seguida, a decisão: o Brasil entra na guerra. Pouco antes, navios mercantes brasileiros haviam sido torpedeados por submarinos inimigos, com cerca de 600 mortos. "Diante da comprovação dos atos de guerra contra a nossa soberania, foi reconhecida a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras", dizia o comunicado oficial.

A decisão dos brasileiros de apoiar os Aliados (liderados pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha) contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) havia sido tomada em conjunto com outros países da América do Sul, em 15 de janeiro do mesmo ano. "A notícia de que o Brasil cortou relações com a Alemanha, Japão e Itália comoveu-me profundamente. Ela assegura-me uma vez mais o apoio do vosso grande país nesta hora de amarga luta contra forças cujas ações e políticas têm sido unanimemente condenadas pelas 21 nações americanas", agradeceu o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt.

Seis dias antes, o Itamaraty recebera em Londres um alerta de que os submarinos inimigos estavam a par da movimentação de navios brasileiros, por meio de informantes infiltrados no continente. "Segundo dados fornecidos ao governo britânico, agentes alemães e italianos, por meio de estações emissoras clandestinas, localizadas no Brasil, Argentina, no Chile e no Equador estariam informando submarinos dos movimentos dos navios aliados na América do Sul", relata o documento confidencial encaminhado ao Estado-Maior do Exército.

A informação era precisa. Nos dias 15, 18 e 25 de fevereiro, os navios Buarque, Olinda e Cabedelo foram torpedeados pelos submarinos alemães e italianos. Morreram 55 pessoas. Mas só depois dos ataques aos navios, uma retaliação alemã, é que o governo decidiu entrar na guerra. Antes, até houve uma pequena aproximação com os alemães, por causa da demora dos Estados Unidos em prestar ajuda econômica ao país, o que acabou acontecendo poucos meses depois. Uma correspondência de 20 de novembro de 1940 entre o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, e Vargas mostra o flerte.

Negociação
"Cabe-me, em conclusão, declarar a V. Excia que da leitura deste relatório mais revigorada sinto a necessidade de prosseguirmos, com todo o afinco, nas tentativas de receber o material encomendado no Reich e que por este país vem sendo posto à nossa disposição, malgrado as tremendas dificuldades que atravessa, dentro dos prazos e das quantidades estipuladas em contrato", narra Dutra, referindo-se a um documento sobre a negociação com os alemães.

Feito o acordo com os Estados Unidos, o Brasil começou a preparar seu efetivo, que iria desembarcar na Itália em 1944. Mas o país também atravessava um período político turbulento. Nas ruas, manifestações contra o regime autoritário de Vargas resultavam em mortes e prisões. O Ministério da Guerra temia que os movimentos chegassem aos soldados e prejudicassem a preparação para a ida à Europa. Por isso, criou um novo serviço de contra-informação, cuja finalidade foi definida em um documento secreto de circulação restrita. "Neutralizar e reprimir quaisquer atividades exercidas por indivíduos ou associações, no sentido de perturbar, por atos ou palavras, a disciplina no interior ou exterior dos quartéis", determinava.

Fora dos quartéis, a guerra aguçava o patriotismo e o imaginário dos brasileiros. Um morador do Rio de Janeiro enviou ao Palácio do Catete um modelo de capacete com as cores da bandeira nacional, sugerindo que ele fosse usado por Vargas e seus auxiliares em solenidades públicas. Da Bahia, um telegrafista identificado apenas como Ezequiel enviou uma carta ao presidente falando sobre as propriedades explosivas da palha de ouricuri, "podendo o caso interessar à indústria de guerra". Bastava transforma-la em pó, dizia o baiano.

O major americano C. Booth também enviou uma carta a Vargas oferecendo uma invenção para os tempos de guerra. Era, segundo o militar, uma mistura de quatro ingredientes domésticos com o açúcar, que se transformaria em uma bomba com poder 40% maior que a dinamite. Os outros componentes Booth manteve em segredo, mas revelou "que podem ser procurados em qualquer drogaria ou casa de secos e molhados". A Diretoria de Material Bélico do Ministério do Exército rejeitou a invenção e vários outros projetos, como os dos aviões lançadores, contra aeronaves inimigas, de óleo quente e de uma rede de aço.

Sem entusiasmo
Dias antes do embarque para a Itália, os soldados brasileiros não mostravam entusiasmo — alguns, inclusive, desertaram para visitar familiares, segundo revelavam relatórios secretos feitos diariamente. Muitos não acreditavam que o Brasil participaria da guerra. "Isto é o efeito da opinião de grande parte da população civil e mesmo de parte dos oficiais do Exército que não estão incluídos na FEB", diz o documento, observando que o trabalho psicológico feito na tropa estava parcialmente neutralizado pelas opiniões das ruas.

As análises dos militares se baseavam na chamada participação "platônica" do Brasil na Primeira Guerra, entre 1914 e 1918, que não passou de realizações de passeatas e manifestações públicas, sem sequer ter ido aos campos de batalha. Avaliações de 1943 mostravam uma população alheia à ida do Brasil à Itália. "Isto ainda está se sucedendo e o nosso povo ainda não está compenetrado de que estamos em guerra", disse Dutra em um relatório secreto enviado a Vargas, em 1944.

Além disso, o povo brasileiro não estava gostando das sanções aplicadas durante o período de guerra. A falta de alimentos em algumas regiões determinou um rigoroso racionamento. "No interior do país, a grita é imensa pela má distribuição de sal e de gasolina", relata Dutra a Vargas. "De outro lado, a sanha dos aproveitadores que, sem se apiedarem do sofrimento alheio, mercadeiam os mais necessários produtos da alimentação popular, explodindo na imprensa daqui e dos estados, constantemente, noticias escandalosas referentes à carne, ao leite, à manteiga, ao peixe, ao carvão e até mesmo à banana."

Na avaliação dos militares, a situação do país afetava o ambiente antes da partida para a Itália. "Tudo isto reflete na ambiência para a guerra, porque uma família não preparada psicologicamente para os sofrimentos decorrentes do estado de guerra, lendo nos periódicos as mais contristadoras notícias tangentes à economia popular, não vê com bons olhos a convocação de um filho para o cumprimento do sagrado dever de defender a pátria", constata Dutra. Da declaração de guerra até a ida para a Itália, foram pelo menos dois anos de preparativos para oito meses de luta — que resultou em 456 mortos.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Guerreiros e Guerreiras:
Leiam esta matéria do meu colega de Correio, Ricardo Miranda. Vale a pena. Muito boa:


Enterro dos jovens do Morro da Providência seqüestrados por militares e entregues a traficantes de uma favela vizinha causa mais protestos na cidade.. Para polícia, tenente idealizou e comandou o "corretivo"
Ricardo Miranda

Publicado no Correio Brasiliense de 17 de Junho de 2008

Rio de Janeiro - Uma grande bandeira verde e amarela salpicada de vermelho, urros de mães encharcadas pela dor, três jovens no início de suas vidas enterrados em caixões de madeira barata, cercados por homens e mulheres divididos entre a perplexidade e a desesperança. E crianças, muitas crianças, treinadas diariamente a odiar o poder público, que só lhes ensina a matemática dos cadáveres e a geografia da exclusão. Ontem, elas encaravam os corpos de seus amigos com muita raiva. Um cartaz emblemático dava o tom: "Exército assassino!".

"Meus Deus, destruíram todos eles", gritava Lílian Gonzaga da Costa, mãe do entregador de pizza Wellington Gonzaga Costa, 19 anos. No sábado de manhã, quando voltava de uma baile funk, o rapaz, junto com os amigos David Wilson Florêncio da Silva, 24, e Marcos Paulo da Silva, 17, foi seqüestrado perto de sua casa, no Morro da Providência, torturado e entregue por homens do Exército a bandidos de uma facção criminosa rival, no vizinho Morro da Mineira. Wellington e David levaram, cada um, cerca de 20 tiros no rosto e no corpo e ficaram desfigurados. Só foram identificados pelas tatuagens ? Wellington tinha as letras WE no braço e David, o rosto de um índia na barriga. Que ninguém se engane: o inconcebível aconteceu no Rio de Janeiro e, mesmo para os aterradores padrões da cidade partida, trata-se de algo com desdobramentos ainda imprevisíveis. "Olha aqui dentro moço, olha o que fizeram com o meu irmão", convidava Bill, os olhos vertendo lágrimas, a foto 3x4 de David lado a lado com o rosto multidilacerado dentro do caixão.

"Vamos pro Exército! Vamos cercar aquilo lá", sugeria alguém, num acesso de cólera. "Olho por olho, dente por dente", conclamava outro, tentando angariar adeptos no mar de olhos vermelhos. O terceiro dia consecutivo de protestos, desta vez em frente ao Comando Militar do Leste (CML), foi também o mais tenso e acabou reprimido com vigor pela Polícia do Exército, que chegou a explodir bombas de efeito moral. Houve correria e algumas pessoas acabaram pisoteadas. Pelo menos um policial ficou ferido, atingido por uma pedrada.

Com os militares catalogados como inimigos, o tráfico deu sua voz de comando e mandou fechar o comércio no entorno da comunidade. Mesmo assim, a quase totalidade das centenas de pessoas que lotaram os corredores de túmulos do cemitério de Botafogo pedia "justiça" e "paz". Acostumados ao massacre diário da polícia e do tráfico, os reféns da comunidade da Providência ainda tentavam entender como o Exército, colocado nas entradas do morro desde novembro passado, para garantir obras de urbanização no local, pôde vestir também a carapuça de vilão. Nenhuma autoridade apareceu no velório ou nos funerais.

Mas duas delas foram especialmente lembradas por quem esteve ali para enterrar seus mortos. "E agora, presidente Lula?", perguntava um cartaz. Candidato favorito de Lula à Prefeitura do Rio, o senador Marcelo Crivella (PRB), autor do projeto Cimento Social, encampado pelo Ministério das Cidades e que justificou a ida do Exército para o morro, também teve seus momentos de fama. "Crivella, pilantra!", gritavam em coro os cordéis que desciam as escadarias do cemitério.

Castigo

Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, o idealizador da entrega dos jovens foi o tenente do Exército Vinícius Ghidetti Andrade, 25 anos. Ele confessou a ação. De acordo com os depoimentos dos militares, o oficial ficou indignado com a decisão do capitão de serviço, que mandou liberar os jovens no sábado. Ao sair da 111ª Companhia de Apoio de Material Bélico, o tenente perguntou aos subordinados se havia nas proximidades um morro dominado por traficantes rivais.

Segundo os militares, a idéia do oficial era aplicar um "corretivo" nos três jovens. Ao chegar à favela, o sargento Maia Bueno, 29 anos, desceu do caminhão e seguiu com as mãos para o alto até os traficantes, onde teria pedido que os jovens recebessem um castigo por terem desacatado os militares. "Não há dúvidas de que eles entregaram os jovens ao Morro da Mineira", afirmou o delegado Ricardo Dominguez, da 4ª DP.

Não havia entre os presentes nenhuma crença na punição dos responsáveis pela morte de David, Wellington e Marcos Paulo. Apesar de a Justiça ter autorizado a prisão de 11 militares ? um oficial, três sargentos e sete soldados.

Na comunidade, os moradores dizem que os três jovens foram, na verdade, vendidos aos traficantes. Mesmo tendo admitido o crime, os militares envolvidos continuavam ontem em prisão administrativa numa unidade do Exército e poderão responder a um IPM (Inquérito Policial Militar) e não pagar por seus atos na Justiça Comum.

"IPM? Isso é uma piada. Prisão em quartel? Isso é castigo de criança", dizia aos berros, um sargento reformado do Exército, Antonio Cerqueira, vizinho dos três jovens mortos. "Meu Deus, vão poupar esses sujeitos depois de eles entregarem três meninos a traficantes como verdadeiros sacrifícios humanos? Eu já tive orgulho de vestir a farda verde-oliva. Hoje tenho nojo, vergonha!", desabafava, sem controlar o choro.

No velório do trio de amigos, parentes e amigos contavam em histórias, lembranças e fotos o que ninguém jamais teve dúvida: de que os três eram jovens trabalhadores, sem qualquer vínculo com grupos criminosos. Suas vidas foram ceifadas na roleta russa da violência carioca. Mãe de Wellington, Lílian lembrava a peregrinação por delegacias antes de descobrir que seu filho fora desovado num aterro sanitário em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. "Você sabe o que é dar um beijo no seu filho e depois descobrir que foi despejado num lixão", consternava-se Lílian.

Avó de Marcos Paulo, Elenita Silva, 64 anos, estava tão dopada por remédios que não sabia sequer quantos netos tinha. Na capela ao lado, outra senhora dava um berro desesperado ao ver o rosto do neto, David. "Não bastaram matar! Desfiguraram meu querido! A maldade era tanta que adivinharam que era um menino vaidoso. O que fizeram com o meu menino bonito?", desesperava-se Isis.

Às 16h30, terminam os funerais. Uma mulher passa e pergunta a um garoto de não mais que 10 anos quem estava sendo enterrado. "Três jovens inocentes", respondeu o menino, sem titubear. Mártires da violência fluminense, David, Wellington e Marcos, seqüestrados, triturados e jogados no lixo, agora descansam em paz, naquele que parece ser o único caminho possível até ela.


Frases

"Ninguém melhor do que as polícias Civil e Militar para lidar com os problemas costumeiros que nós temos aqui"

José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do Rio

"Você sabe o que é dar um beijo no seu filho e depois descobrir que foi despejado num lixão"

Lílian Gonzaga, mãe de um dos jovens mortos


"Não bastaram matar! Desfiguraram meu querido!

A maldade era tanta que adivinharam que era um menino vaidoso"

Isis, avó de uma das vítimas
O inferno astral do Exército
Apesar de ser bem vista pela população, como mostra pesquisa nacional, instituição é afetada por diversas polêmicas recentes, que envolvem de questões indígenas à prisão de homossexuais

Edson Luiz

Da equipe do Correio

Há dois meses, um dos generais mais respeitados do país acirrou o debate sobre a reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. O comandante militar da Amazônia, Augusto Heleno, criticou a forma como a área foi demarcada, começando uma espécie de inferno astral do Exército. A má fase inaugurada ali se agravou poucos dias depois, quando dois sargentos da ativa assumiram a homossexualidade e foram presos. E as notícias ruins continuaram. Na semana passada, um cadete da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) morreu por causa de exercícios físicos forçados. E, como mostrou o Correio na segunda-feira, taifeiros de Brasília denunciam humilhações sofridas nas casas de generais. Os soldados, que têm a função de cozinheiros ou copeiros, são forçados a desempenhar outras tarefas, como fazer faxinas e lavar roupas íntimas. Mas foi no sábado passado, como o episódio do Morro da Providência, que a corporação viu sua imagem ser fortemente abalada, depois de passar mais de 20 anos tentando reconstruí-la, após o fim da didatura. Isso, quatro dias depois de uma pesquisa apontar a instituição como a mais confiável do país.

Nos últimos anos, a imagem do Exército esteve ligada à Amazônia, onde é realizado um trabalho de contato direto com a população, que acolhe e é bem acolhida pela corporação. Porém, com o decorrer do tempo, as Forças Armadas são cada vez mais requisitadas para atuar na segurança pública, uma tarefa que, segundo a Constituição, não é sua. A missão dos cerca de 200 homens enviados ao Morro da Providência era garantir a segurança para a realização de obras de revitalização da área. Mas o saldo foi de três mortos. E, pela primeira vez, desde o regime militar, tropas do Exército se confrontaram com civis e tiveram viaturas atacadas por cidadãos enfurecidos.

Imagem

A imagem do Exército atualmente é exemplar. Segundo pesquisa da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), divulgada na semana passada, a Força conta com 79% de aceitação popular. Isso, no momento em que a instituição é o centro de vários debates, envolvendo temas como a demarcação de terras indígenas e a discriminação a homossexuais. A primeira polêmica começou há dois meses, quando o general Augusto Heleno criticou a demarcação atual da reserva Raposa Serra do Sol. A repercussão causada por suas declarações obrigou Heleno, um ícone dentro da Força, a se calar. A definição sobre o assunto caberá agora ao Supremo Tribunal Federal.

Quando o Exército começava a sair dos noticiários que desgastavam sua imagem, os sargentos Laci de Araújo e Fernando Figueiredo resolveram assumir sua homossexualidade. Ambos foram presos por motivos disciplinares, mas grupos ligados aos direitos humanos acusaram as Forças Armadas de homofobia. Depois, veio a morte do cadete na Aman, a denúncia dos taifeiros e, no sábado, o caso da Providência.

"O Exército, de certo modo, está dando as respostas. Abriu um IPM (Inquérito Policial Militar) e a polícia abriu outro", avalia o coronel da reserva Geraldo Cavagnari, integrante do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, sobre o mais recente episódio que abalou o país. A morte dos três rapazes no Rio trouxe à tona, novamente, a discussão do uso das Forças Armadas na segurança pública. Na sua avaliação, a imagem do Exército deve sobreviver a esse acontecimento. "O trabalho que estava sendo feito era, além de tudo, uma ação social e, por isso, o fato (as mortes) não irá afetar a imagem do Exército", analisa.

O trabalho que estava sendo feito era, além de tudo, uma ação social e, por isso, o fato (as mortes) não irá afetar a imagem do Exército

Geraldo Cavagnari, coronel da reserva

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O avião que não caiu


Foto: Eduardo Nicolau/AE

Terça-feira, 20 de maio, 17h. A redação pára quando a Globo News, durante a transmissão ao vivo da CPI dos Cartões Corpotativos, começa a transmitir um alerta em que diz que um avião da empresa aérea Pantanal caiu na zona leste de São Paulo. Repórteres saem correndo às ruas. Eu sou uma delas. Às 17h30, estou parada no trânsito a pelo menos 2 km do local do possível acidente. O congestionamento é enorme, nada anda. Desço do táxi e começo a correr, uma alucinada entre milhares. Imagina, um avião caiu em São Paulo. Tenho de chegar à notícia e fazer a matéria. Não é todo dia que isso acontece. Mas seria o terceiro ano consecutivo que um acidente deste porte se repeteria nos ares brasileiros.

Tento parar três motoqueiros, para ver se me dão uma carona. Nenhum deles quer me ajudar, pois não tenho capacete. O quarto motorista que eu paro tem um capacete reserva na mochila e resolve me ajudar. "Graças a Deus", agradeço eu. Bons repórteres também precisam ter sorte.

Bem, correndo, rasgo meu sapato. Dois furos. Continuo correndo e chego ao local. Uma verdadeira operação de guerra foi montada. Pelo menos 25 carros dos bombeiros, GOE (Grupo de Operações Especiais) da Polícia Civil, Subprefeituras, PM, Defesa Civil, Garra, e diabo a quatro. O que você imaginar que poderia estar presente em uma tragédia se dirigiu para a região. A coordenadoria de subprefeituras informou que estava preparada para acionar caminhões-pipa e montar barracas para o resgate de feridos.

Tudo isso porque a Globo News divulgou por quinze minutos, das 17h10 às 17h25, a informação errada. O avião não caiu. Foi apenas um curto circuito em uma loja de colchões.

Como um repórter precia contar com a sorte, encontrei o PM que passou a informação errada. Ele me confessou que, ao chegar no local do incêndio, às 17h10, populares pulavam encima da viatura gritando que um avião tinha caído. Ele, então, passou a informação pelo rádio, à corporação, de que um avião tinha caído. No mesmo instante, uma aeronave da Pantanal passou sobre sobre o local, informando à torre de Congonhas que não conseguiria pousar porque havia muita fumaça de um incêndio na região.

Alguém na Globo News, então, interceptou o rádio da PM, misturou alhos com bugalhos e deu no que deu. Barriga.

domingo, 25 de maio de 2008

DESABAFO DA GUERREIRA CHRISTINA

Caríssimos,

Não sei o que vocês andam fazendo de matéria, mas minhas duas últimas semanas foram tão intensas que resolvi escrever. Precisava descarregar um pouco. Foram três incursões (Complexo da Maré, Pavão-Pavãozinho e Chapéu Mangueira) e uma única sensação:miserável aquele que tem a favela como único refúgio.
Sentados em frente a uma viatura da Polícia Militar e com as mãos algemadas para trás, três rapazes miram o olhar para minha direção. Com o bloco na mão, finjo que não percebo, aperto o colete à prova de balas no corpo e tento relaxar. No capô do carro, pistolas, fuzis, munição e muita droga - material que supostamente tinha sido apreendido com o trio. Em volta daquele cenário, gente, principalmente crianças. Era o circo na favela. Tinha plena convicção que as provocações e os xingamentos dos moradores aos policiais, acusados de excesso de violência, só progrediam porque eu estava ali. Mesmo que única figura feminina entre os PMs e jornalistas, minha presença delimitava o abismo entre poder e arbitrariedade. Eu era a segurança de que, pelo menos por aquele momento, não haveria retaliação. Confesso que, na hora, pesou um desânimo, uma carga de responsabilidade social tão imensa, que o medo de errar gerou pavor. E se eles realmente não fossem bandidos? E se fossem? E se a apreensão tivesse sido plantada? E se houve negociação? E se amanhã eu encontrar com um deles na estação de metrô? E seu tiver sendo injusta?
Era Nova Holanda, Complexo da Maré, uma das favelas mais violentas do Rio. Local onde a pobreza parece estampar o céu que cobre a comunidade. As casas baixas, os puxadinhos, aumentam a sensação de insegurança de quem se arrisca a atravessar a comunidade. O terreno plano é uma armadilha. Demoro a perceber de quais pontos partem os disparos. Inicia-se, uma sucessão de rajadas e explosões de granadas. O fotógrafo corre e se esconde atrás de um muro. Eu fico de frente para ele, mas do outro lado da rua. Um caveirão passa e, por impulso, eu me jogo no chão. Sempre tenho a sensação de que os policiais, consumidos pela emoção, podem errar a mão e disparar o fuzil sem querer. Passam-se trinta minutos desde o primeiro estrondo. A operação segue e, no chão, já é possível ver o resultado: um rastro de sangue leva a um baleado. Um conhecido fardado passa e sinaliza. É hora de avançar. Alguns metros à frente, uma casa cercada. Três rapazes saem com as mãos para o alto. E o dia prossegue, sem almoço, sem descanso, sem choradeira. Fazer cobertura de operação no Rio é testar os nervos e comemorar a vida sempre que se deixa a favela. É conviver com a parte podre da cidade, é aprender raciocionar rápido, ser objetivo, falar várias línguas. Mas é também amadurecer, conhecer histórias e aprender.

domingo, 11 de maio de 2008

O ninguém viu no curso

Conversando com o Edinho nesta semana em São Paulo, ele me deu a idéia de pôr algumas fotos no blog, já que ninguém mais postou nada. Aí vão elas


Meninas preparadas para a guerra


Major Ricardo faz careta para acordar o povo. Alguém lembra de algo da aula?


Comandante do Esquadrão do 3º contingente brasileiro no Haiti ensina aos jornalistas como dormir nos intervalos entre os tiroteios


Isso aí é um curso de jornalismo de guerra?!


Eu não tenho a mínima idéia do que é a aula, mas todos sabemos que tem introdução, desenvolvimento e conclusão.

domingo, 30 de março de 2008

Morre fotógrafo que inspirou o filme 'Os Gritos do Silêncio'

Dith Pran morre aos 65 anos, vítima de câncer (Foto: Reuters)

O fotógrafo cambojano Dith Pran, cuja experiência de vida sob o regime dos Khmeres Vermelhos inspirou o filme "Os gritos do silêncio", morreu neste domingo (30) em Nova Jersey devido a um câncer de pâncreas.
A notícia foi comunicada publicamente por seu amigo e antigo correspondente de guerra do "New York Times", Sydney Schanberg, que também foi representado no filme, que estreou em 1984.
Dith Pran trabalhava para Schanberg como assistente e intérprete no Camboja em 1975, quando o país passou para as mãos dos Khmeres Vermelhos.
Após cobrir a chegada ao poder deste regime marxista, as autoridades não deixaram o Pran sair, o que permitiram ao jornalista americano, que sempre se lamentou de ter tido que abandonar Pran.
Após quatro anos de torturas e castigos, Pran conseguiu escapar para a Tailândia e ali enviou uma mensagem a seu antigo companheiro, que saiu imediatamente dos Estados Unidos para se encontrá-lo, em um emotivo reencontro.
"Durante quatro anos busquei sem sucesso qualquer prova de vida de Pran. Já estava perdendo toda a esperança. Mas sua ligação de emergência foi como um milagre para mim. Devolveu-me a vida", confessou pouco depois o correspondente do "New York Times".
Em 1980, Schanberg escreveu em uma reportagem, e posteriormente em um livro, o sofrimento de seu companheiro, relato que serviu de inspiração para o filme, que ganhou três estatuetas do Oscar.
O artigo, que recebeu o título de "The death and Life of Dith Pran" (A Morte e Vida de Dith Pran, em tradução livre) deu a Schanberg um Prêmio Pulitzer, em 1976.
Após escapar do Camboja, Pran se instalou nos Estados Unidos e começou a trabalhar para o "New York Times" como assistente do departamento de fotografia, onde aprendeu a mexer na câmara nas ruas de Nova York.
Dith Pran, que no momento de sua morte tinha 65 anos, fundou uma organização para conscientizar o mundo sobre o regime dos Khmeres Vermelhos, que governou o Camboja entre 1975 e 1979, e que foi responsável pela morte de cerca de mil de pessoas.
Além disso, foi embaixador de Boa Vontade do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur).
Quando o líder dos Khmeres Vermelhos, Pol Pot, morreu em 1998, Pran lamentou que o ditador nunca tivesse sido julgado perante a Justiça pelos crimes cometidos, entre eles a morte de seus três irmãos.

Antes de Partir...

Guerreiras e guerreiros:
Este artigo saiu na Revista do Globo, no domingo seguinte ao fim do nosso curso. Tou postando pois vale à pena ler.

Antes de partir, por Martha Medeiros

Um filme cujos protagonistas são Jack Nicholson e Morgan Freeman, com diálogos bem construídos e um humor inteligente (mesmo tratando de um assunto difícil como a finitude da vida) já entra em cartaz com vantagem, mesmo que o roteiro não seja lá muito surpreendente.
Antes de Partir não é mesmo surpreendente, mas isso também pode ser uma coisa boa. Ficamos sempre correndo atrás de fórmulas novas quando deveríamos nos dedicar mais a reforçar certas verdades. E a verdade do filme, se pudesse ser resumida numa frase, seria: aproveite o tempo que lhe resta. Nada que você já não tenha escutado mil vezes.
Nicholson e Freeman interpretam dois sessentões que descobrem estar com uma doença terminal. Os prognósticos apontam seis meses de vida para cada um, no máximo um ano. E agora? Esperar a extrema-unção numa cama de hospital ou buscar a extrema excitação?
Sem piscar, eles aventuram-se pelo mundo praticando esportes radicais, conhecendo lugares exóticos, desfrutando todos os prazeres de uma vida bem vivida - claro que um deles é milionário e banca tudo, detalhe que nos falta na hora de pensar em fazer o mesmo. Você não pensa em fazer o mesmo?
Você, eu e mais 6 bilhões de homens e mulheres também estamos com a sentença decretada, só não sabemos o dia e a hora. Está certo que é morbidez pensar sobre isso quando se é muito moço, mas alcançando uma certa maturidade, já dá pra parar de se iludir com a vida eterna, amém. Com dinheiro ou sem dinheiro, faça valer a sua passagem por aqui. Não sei se você percebeu, mas viver é nossa única opção real. Antes de nascermos, era o nada. Depois, virá mais uma infinidade de nada. Essa merrequinha de tempo entre dois nadas é um presentaço. Não seja maluco de desperdiçar.
Ok, quantos de nós podem sair amanhã para um safári na África, para um tour pelas pirâmides do Egito, para um jantar num restaurante cinco estrelas na França? Ou teria coragem de saltar de pára-quedas e pisar fundo num carro de corrida numa pista em Indianápolis? Se não temos grana nem dublês, então que a gente se divirta com outro tipo de emoção, que o filme, aliás, também recomenda.
Reconheçamos o básico: uma vida sem amigos é uma vida vazia. O mundo é muito maior que a sala e a cozinha do nosso apartamento. A arte proporciona um sem-número de viagens essenciais para o espírito. Amar é disparado a coisa mais importante que existe.
Que mais? Desmediocrize sua vida. Procure seus "desaparecidos", resgate seus afetos. Aprenda com quem tiver algo a ensinar, e ensine algo àqueles que estão engessados em suas teses de certo e errado. Troque experiências, troque risadas, troque carícias. Não é preciso chegar num momento limite para se dar conta disso. O enfrentamento das pequenas mortes que nos acontecem em vida já é o empurrão necessário. Morremos um pouco todos os dias, e todos os dias devemos procurar um final bonito antes de partir.
Martha Medeiros

quinta-feira, 27 de março de 2008

José Hamilton Ribeiro



O coronel André Novaes, comandante do CIOpPaz (Centro de Instrução de Operações de Paz) do Exército, brindou o grupo que se formou jornalista de guerra com um trecho da entrevista do grande José Hamilton Ribeiro à Revista Grandes Guerras deste mês (Edição 22), sobre a cobertura da Guerra do Vietnã e o acidente, em que o repórter da Realidade pisou em uma mina.

GG: você passou por treinamentos para poder acompanhar as tropas americanas na Guerra do Vietnan?

JH: Não. E nem sei se existia algo semelhante para jornalistas, como há atualmente. Sei disso porque passei por essa experiência recentemente. Minha filha é casada com Sérgio D'Ávila, repórter da Folha de S. Paulo que foi ao Iraque, e ele teve que fazer um curso destinado a jornalistas que atuam em regiões de conflito.

GG: Mesmo em condições muito diferentes daquelas que existia em 1968, você acha que hoje valeria a pena participar de uma nova cobertura de guerra?

JH: Claro. Se o jornalista tem vocação de repórter, tem de ir para contar o que acontece da forma mais imparcial possível. Para mim, qualquer guerra só é importante se tem alguém que escreva sobre ela. O que seria de Canudos sem Euclides da Cunha? Seria um mero relato de manobras militares de três ou quatro páginas, com o número de baixas de cada lado.

"Cobrir uma guerra é o degrau mais alto da carreira de um repórter."

Ao coronel Novaes, nosso obrigado pelo trecho. E ao José Hamilton, que mesmo aos 80 anos continua em plena forma como repórter, dedicamos a frase que ele ouviu de seu editor da Realidade quando foi ao Vietnã, a mesma que ele disse ao genro, Sérgio DÁvila, quando este foi ao Iraque em 2003.

A mesma frase que todos nós, repórteres, sonhamos em um dia ouvir de bons editores que apostam em nosso potencial para cobrir um conflito.

"Vai, mas volta vivo para contar a história".

Para quem ainda não leu, recomendo "O Gosto da Guerra", de José Hamilton Ribeiro.

Assistam vídeo do curso!


Caros, prestigiem o vídeo que nosso grande Kaiser produziu sobre o curso que fizemos:


http://www.youtube.com/watch?v=9MaIRMUKxEw

segunda-feira, 24 de março de 2008

MATÉRIA DO TREZZI NO ZERO HORA

23 de março de 2008 N° 15549AlertaVoltar para a edição de hoje
Exército treina jornalistas para sobreviver a guerras
Só no ano passado, 106 profissionais de imprensa morreram durante cobertura de guerras no mundo

O sol é uma fornalha, e os 37ºC tornam uma tortura a caminhada pela trilha em meio a arbustos. A dor de cabeça aumenta, agravada pelos quase 20 quilos de equipamentos que cada um dos jornalistas e soldados carrega: nove quilos no colete à prova de balas formado por quatro chapas de aço, dois quilos de capacete e mais oito da mochila presa às costas.Asituação poderia ficar pior? Fica. Dois clarões surgem das sombras no morro em frente à trilha e de imediato o sargento que comanda a patrulha berra: cuidado!Jornalistas e soldados se atiram para o mato e rolam no barro, com equipamento e tudo. Só depois é que se ouve os sons dos tiros de fuzil. Sim, para quem não sabe, um tiro é antes visto - quando isso é possível - e depois ouvido, já que as balas superam a velocidade do som.Ninguém morre de verdade, porque os projéteis eram de festim. A emboscada foi uma das muitas registradas durante o primeiro curso para jornalistas correspondentes em áreas de risco, ministrado no Rio de Janeiro, na segunda semana de março, pelo Exército. O treinamento foi realizado em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU). Zero Hora estava lá, com 15 outros representantes de veículos de comunicação, entre eles o jornal francês Le Figaro e a agência britânica de notícias Reuters.Mortes de jornalistas superam a de soldados em alguns locaisO curso foi idealizado porque a mortandade entre repórteres que cobrem conflitos é muito grande. Em alguns locais, supera a de soldados. Jornalistas, na maioria das vezes, não sabem circular em zona de guerra, apenas intuem. É para mostrar as técnicas corretas de sobrevivência, válidas para soldados ou civis, que o Centro de Instruções de Operações de Paz do Exército (Cioppaz), criado há dois anos no Rio, realizou este treinamento. Os militares desejam prevenir também mortes na guerra interna que assola algumas regiões do Brasil, como as favelas da cidade fluminense.O Rio das praias famosas fica bem longe desse curso. Tudo ocorre na abafada Zona Norte, onde o calor é calcinante. Primeiro, num quartel no bairro de Deodoro, onde os jornalistas dormem em contêineres e se submetem a 15 horas de aulas por dia - entre palestras e atividades. Depois, em barracas montadas no campo de instruções do Exército de Gericinó.No treino abundam as "mortes" metafóricas. Três jornalistas e dois soldados, por exemplo, são atingidos por um "sniper" (atirador de precisão) emboscado numa árvore. Como sabem que foram acertados? Porque sensores infravermelhos presos ao corpo indicam cada vez que a pessoa é alvo de disparos de festim.Uma sirene tocou para avisar que todos estavam mortosO repórter de ZH também "morreu" de mentirinha. Foi quando tentava localizar uma mina explosiva enterrada. Um sargento especialista pediu que o jornalista colocasse de forma errada, propositalmente, a vareta usada por soldados para detectar o explosivo abaixo do solo. Assim foi feito. Uma sirene tocou, avisando que todos, num raio de 15 metros, estavam "mortos".Os repórteres tiveram ainda noções sobre como se localizar na mata com GPS, evitar emboscadas numa favela, socorrer e carregar feridos, escapar de um quartel sob fogo de morteiros. Divertido, mas ao mesmo tempo sério. Talvez com esse tipo de curso encolham estatísticas como a do ano passado, quando 106 jornalistas morreram em guerras.( humberto.trezzi@zerohora.com.br )HUMBERTO TREZZI

domingo, 23 de março de 2008

Queridos guerreiros da notícia. Após vivenciar dias de agonia e alegria ao lado de vocês, admito que me tornei uma pessoa mais compreensiva com o ser humano. A rotina diária do jornalista se equivale a uma batalha incessante, mas nada se compara ao real risco de se perder a vida em busca de uma boa matéria. Dar furo é o que todos nós almejamos, mas viver em segurança é fundamental. Sigamos na nossa missão nobre de informar, mas sem jamais esquecer de quão importante é nos mantermos vivos, felizes, saudáveis e acima de tudo bem humorados. Grande beijo,
Marcia

quarta-feira, 19 de março de 2008

Parem as máquinas!!!!!


Sejam bem-vindos ao blog da primeira turma do "Curso de Preparação de jornalistas para Áreas de Conflito", realizado pelo Exército do Brasil e pelo escritório da Organização das Nações Unidas (ONU). Aqui poderemos conhecer melhor cada um dos repórteres que participaram e saber um pouquinho dos desafios que aprenderam a superar. Além é claro, das piadas, imitações do Fachel, das discussões, dos joelhos ralados, da ração diária, e da pizza que nunca veio. Sem falar dos repórteres baleados e do passeio de Urutu.
Cascata!!!!
(ps: este texto é provisório)
Publicar postagem