segunda-feira, 24 de março de 2008

MATÉRIA DO TREZZI NO ZERO HORA

23 de março de 2008 N° 15549AlertaVoltar para a edição de hoje
Exército treina jornalistas para sobreviver a guerras
Só no ano passado, 106 profissionais de imprensa morreram durante cobertura de guerras no mundo

O sol é uma fornalha, e os 37ºC tornam uma tortura a caminhada pela trilha em meio a arbustos. A dor de cabeça aumenta, agravada pelos quase 20 quilos de equipamentos que cada um dos jornalistas e soldados carrega: nove quilos no colete à prova de balas formado por quatro chapas de aço, dois quilos de capacete e mais oito da mochila presa às costas.Asituação poderia ficar pior? Fica. Dois clarões surgem das sombras no morro em frente à trilha e de imediato o sargento que comanda a patrulha berra: cuidado!Jornalistas e soldados se atiram para o mato e rolam no barro, com equipamento e tudo. Só depois é que se ouve os sons dos tiros de fuzil. Sim, para quem não sabe, um tiro é antes visto - quando isso é possível - e depois ouvido, já que as balas superam a velocidade do som.Ninguém morre de verdade, porque os projéteis eram de festim. A emboscada foi uma das muitas registradas durante o primeiro curso para jornalistas correspondentes em áreas de risco, ministrado no Rio de Janeiro, na segunda semana de março, pelo Exército. O treinamento foi realizado em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU). Zero Hora estava lá, com 15 outros representantes de veículos de comunicação, entre eles o jornal francês Le Figaro e a agência britânica de notícias Reuters.Mortes de jornalistas superam a de soldados em alguns locaisO curso foi idealizado porque a mortandade entre repórteres que cobrem conflitos é muito grande. Em alguns locais, supera a de soldados. Jornalistas, na maioria das vezes, não sabem circular em zona de guerra, apenas intuem. É para mostrar as técnicas corretas de sobrevivência, válidas para soldados ou civis, que o Centro de Instruções de Operações de Paz do Exército (Cioppaz), criado há dois anos no Rio, realizou este treinamento. Os militares desejam prevenir também mortes na guerra interna que assola algumas regiões do Brasil, como as favelas da cidade fluminense.O Rio das praias famosas fica bem longe desse curso. Tudo ocorre na abafada Zona Norte, onde o calor é calcinante. Primeiro, num quartel no bairro de Deodoro, onde os jornalistas dormem em contêineres e se submetem a 15 horas de aulas por dia - entre palestras e atividades. Depois, em barracas montadas no campo de instruções do Exército de Gericinó.No treino abundam as "mortes" metafóricas. Três jornalistas e dois soldados, por exemplo, são atingidos por um "sniper" (atirador de precisão) emboscado numa árvore. Como sabem que foram acertados? Porque sensores infravermelhos presos ao corpo indicam cada vez que a pessoa é alvo de disparos de festim.Uma sirene tocou para avisar que todos estavam mortosO repórter de ZH também "morreu" de mentirinha. Foi quando tentava localizar uma mina explosiva enterrada. Um sargento especialista pediu que o jornalista colocasse de forma errada, propositalmente, a vareta usada por soldados para detectar o explosivo abaixo do solo. Assim foi feito. Uma sirene tocou, avisando que todos, num raio de 15 metros, estavam "mortos".Os repórteres tiveram ainda noções sobre como se localizar na mata com GPS, evitar emboscadas numa favela, socorrer e carregar feridos, escapar de um quartel sob fogo de morteiros. Divertido, mas ao mesmo tempo sério. Talvez com esse tipo de curso encolham estatísticas como a do ano passado, quando 106 jornalistas morreram em guerras.( humberto.trezzi@zerohora.com.br )HUMBERTO TREZZI

Um comentário:

Anônimo disse...

Belíssima matéria.
Parabéns Trezzi.