terça-feira, 26 de agosto de 2008

ARQUIVOS DE GUERRA

Terceira parte da série de reportagens baseada em documentos secretos da FEB revela que erro tático norte-americano quase provocou massacre de pracinhas em Monte Castelo
Depois da frustração, a conquista



O general João Batista Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), é chamado pelos chefes do Exército americano. Ele vai ao encontro acompanhado pelos generais Euclydes Zenóbio da Costa e Oswaldo Cordeiro de Faria. Horas antes, as tropas aliadas tinham sido repelidas pelos alemães, mais uma vez, em Monte Castelo, onde, por um erro tático dos Estados Unidos, quase todos os combatentes brasileiros foram massacrados pelos inimigos. A terceira parte da série de reportagens baseada em documentos secretos da FEB descreve esse tenso encontro e a reviravolta na sorte dos pracinhas brasileiros.

“Julga que, diante da missão dada à 1ª. DIE (Divisão de Infantaria Expedicionária), que a tropa brasileira tem capacidade ofensiva?”, perguntou o major-general Willis D. Crittenberger, comandante da IV Companhia do Exército americano. O clima fica tenso. “A pergunta foi cruel e decisiva para a sorte da divisão”, afirmou Mascarenhas de Moraes em um dos relatórios secretos sobre a guerra. O comandante brasileiro ainda fez menção de responder, mas Cordeiro de Farias e Zenóbio da Costa interviram e sugeriram que Crittenberger fizesse a pergunta por meio de ofício, o que aconteceu no dia seguinte. O documento foi respondido por nossos generais, que sugeriram uma série de mudanças na tática adotada pelos aliados.

A primeira batalha em Monte Castelo aconteceu em 24 de novembro de 1944. A FEB atuou com o Task Force 45 americano, mas não obteve êxito. “Começávamos a criar assim, a lenda sobre Monte Castelo, que atraía para si o prestígio de posição inexpugnável”, descreveu Mascarenhas de Moraes no relatório. No dia seguinte, um novo combate, outra derrota e cresce o estado de depressão das tropas, repelidas por tanques inimigos.

“Essas duas operações não foram convenientemente preparadas pelo comando americano, que na ansiedade de atacar de qualquer maneira não concedeu o tempo necessário para os reconhecimentos da infantaria e da artilharia”, diz o relatório de Mascarenhas de Moraes. A ação dos aliados fora decidida um mês antes, em uma reunião com todos os comandantes também em Passo de Futa para analisar os insucessos das investidas no eixo Florença-Bologna. A intenção era tomar a região até dezembro, antes da chegada do inverno.

O V Exército americano prometera aos brasileiros a entrega de armas uma semana depois, o que acabou não acontecendo no prazo. Os soldados da FEB não foram suficientemente treinados com os novos equipamentos, o que prejudicou as investidas. “A despeito de todas as providências tomadas, foi o armamento entregue com muito atraso, acarretando sérios prejuízos para a instrução dos 2º e 3º Escalões da FEB, cujas unidades, mal-instruídas e mal adaptadas, eram jogadas atropeladamente para a frente de combate, face a um inimigo que nos dominava por toda a parte, pela vista e pelo fogo”, narrou Mascarenhas de Moraes no relatório.

Ofensiva ampliada
Ao contrário do que esperava Mascarenhas de Moraes, porém, o IV Corpo do Exército americano aumentou a área de atuação da FEB. A ordem de ataque não era mais apenas Monte Castelo, mas também Belvedere e Monte Della Torraccia. “Para o comando brasileiro e sua tropa, a situação era bastante crítica em face da obstinação dos comandos americanos em retomar a ofensiva antes do rigor do inverno, que se aproximava”, descreve o general. Segundo o relatório da FEB, os pracinhas amarguravam uma situação moral e material desoladora. Enquanto parte dos soldados americanos descansava, os militares do Brasil estavam há 80 dias em contato direto com o inimigo.

A investida de 12 de dezembro foi a mais infrutífera. Chovia intensamente às 6h30, horário marcado para o começo dos combates. A falta de visibilidade atrapalhava qualquer avanço e não permitia a ajuda da Força Aérea. Meia hora antes, tiros americanos em um setor vizinho acabaram com o sigilo da missão. Além disso, uma ordem mal-interpretada por um escalão de apoio desorganizou os procedimentos traçados na noite anterior. “O ataque perdeu por completo a impulsão e foi dado por encerrado às 15h, sem alcançar os objetivos e com sensíveis perdas, cerca de 140 baixas, entre mortos e feridos”, diz o relatório. Apenas 4 mil dos 12 mil tiros programados foram disparados.

No relatório de Mascarenhas de Moraes, dois desabafos mostram o estado de espírito dos brasileiros naquele dia: “Foi certamente uma jornada infeliz, onde até os elementos conspiraram contra nós. A experiência na guerra é sempre uma fonte de ensinamentos preciosos. Este combate de 12 de dezembro, certamente o mais espetacular e esquisito insucesso sofrido por nós na Itália, foi prenhe de ensinamentos”. O fracasso também atingiu a tropa, que já estava cansada e sem proteção contra o frio que a cada dia se tornava mais rigoroso. O comandante sentiu, por diversas vezes, a iminência de ver sua divisão completamente destruída, como aconteceu com os portugueses na 1ª Guerra.

Recomposição de forças
Foi justamente devido àquela reunião da noite de 12 de dezembro que a situação dos brasileiros começava a reverter. No ofício enviado ao general Mark Clark, comandante do V Exército, Mascarenhas de Moraes reclamou ao militar dos Estados Unidos da precipitação com que a FEB estava sendo usada. Além disso, pediu 10 dias para reajustar as tropas, além da redução da área de atuação da FEB. Clark, a quem os brasileiros eram subordinados, atendeu os pedidos do chefe da FEB.

No final de dezembro começa a nevar forte na região. Apesar da previsão de reconhecimentos agressivos por parte do inimigo, não houve qualquer ofensiva. A idéia era manter as posições atuais. Até fevereiro de 1945, poucos combates foram realizados pelos brasileiros e, mesmo assim, vários alemães foram aprisionados. O inimigo, entretanto, continuava a atacar. Porém, havia uma determinação para economizar munição, principalmente de canhões e morteiros.

Em 8 de fevereiro, em uma reunião entre os comandantes, são montados os novos planos para outra ofensiva sobre Monte Castelo. Ao contrário do ataque de 12 de dezembro, desta vez as tropas brasileiras atuaram em conjunto com uma divisão de montanha americana. A missão era atacar em direção a Belvedere e Torraccia. A FEB deveria manter também a guarda de uma área conquistada de 18km, além de conquistar Monte Castelo.

A mais importante vitória dos pracinhas aconteceu em 21 de fevereiro. A batalha começou às 5h30m e, às 17h20m, os alemães já estavam praticamente dominados. O objetivo era o mesmo, a tomada de Monte Castelo. O inimigo também queria o local. Porém, os meios eram outros, como definiu o comandante da FEB: “Tropa descansada, eficiente e de maior efetivo, artilharia mais abundante, aviação mais poderosa e com tempo favorável”, analisa Mascarenhas de Moraes em seu relatório.

Arquivos de Guerra: Ultimato e rendição

Depois de batalhas cruentas, a 148ª Divisão de Infantaria Alemã se rende aos pracinhas brasileiros. Dois generais e 15 mil soldados são feitos prisioneiros

Edson Luiz - Correio Braziliense

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Publicação: 26/08/2008 09:43 Atualização: 26/08/2008 09:45

Fornovo, Itália, 28 de abril de 1945

“Para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos incondicionalmente ao Comando das Tropas regulares do Exército Brasileiro que estão prontas para vos atacar. Estais completamente cercados e impossibilitados de qualquer retirada. Quem vos intima é o comandante da Vanguarda Brasileira que vos cerca. Aguardo, dentro de duas horas, a resposta do presente ultimatum.”

Surpreendida pelas tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), a 148ª Divisão de Infantaria alemã nunca imaginaria que faria parte da história militar brasileira. Pela primeira vez, o Exército aprisionou, de uma só vez, dois generais inimigos e cerca de 15 mil soldados. “Cercada inteiramente pelos elementos da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) na região de Caiano-Fornovo Di Taro-Felegara-Neviano, depois da derrota sofrida pela vanguarda em Collecchio, e vendo a impossibilidade de se reunir ao exército alemão em N do Pó, só lhe restava a rendição, que seu comando propôs ao comando brasileiro, após a intimação que lhe fora dirigida pelo Cmt do 6º. RI (Regimento de Infantaria)”, narra um dos relatórios secretos da FEB.

O ultimato às tropas alemãs foi dado pelo coronel Nelson de Mello que, usando um sacerdote católico voluntário para a missão, transmitiu a mensagem para o general alemão Otto Fretter Pico. À meia-noite do dia 29, três oficiais chefiados pelo major W. Kuner chegam ao 6º RI para negociar os termos da rendição. A conversa começa uma hora e meia depois, com o inimigo justificando os motivos que levaram Pico a uma decisão extrema: o esgotamento físico dos soldados, falta de combustível e de recursos para tratar 800 feridos.

“Posteriormente, viemos verificar a improcedência quase total da justificativa, uma vez que no copioso material apreendido existia muita munição e víveres e o número de doentes não atingia 150”, relatou o comandante da FEB, general João Batista Mascarenhas de Moraes. Kuner aceitou os termos fixados pelos brasileiros, mas pediu condescendência para seu comandante e para o general italiano Mário Carloni, da Divisão Bersaglieri Itália. As conversações estavam concluídas no final da madrugada.

Os primeiros prisioneiros chegaram por uma estrada próxima à Ponte Scodogna, em 13 ambulâncias com cerca de 80 inimigos feridos, alguns em estado grave. Uma hora depois, chegam mais oito ambulâncias, com 58 doentes. Os alemães ainda tentaram modificar o horário da entrega das armas, o que não foi aceito pelos brasileiros, segundo os relatórios secretos da FEB. “O fato de estarmos em contato com um inimigo astuto, que podia lançar mão do tempo para outros fins e a urgência que tínhamos em completar a tarefa da rendição para cumprir outras missões já em perspectiva, levaram o comando da divisão a não aceitar a sugestão”, relata o documento de Mascarenhas de Moraes.

Armas depostas
No final do dia, chegava a primeira coluna motorizada, que vinha por uma faixa indicada para a deposição das armas, na estrada 63 (Sarzana-Parma). Vestido de preto, tendo na lapela o desenho de uma caveira sobre duas tíbias cruzadas, símbolo de seu grupo, ele se apresentou como sendo um fregattenkapitan, capitão-de-fragata, e determinou que seus homens começassem a jogar suas armas, que eram lançadas a distância, para que pudessem ser danificadas.

Ao contrário do que dissera o major Kuner, durante as negociações da rendição, as tropas alemãs não pareciam em péssimas condições. Os soldados estavam com bom aspecto físico, bem alimentados e com fardamento e calçados bons. Logo em seguida, vieram a coluna com canhões e morteiros, um grupo de artilharia e uma coluna ligeira de munição. Todos os militares inimigos estavam com boa aparência e entusiasmados, inclusive cantando. O que mais surpreendeu as tropas brasileiras que faziam a guarda dos prisioneiros foi o material encontrado com os alemães. Além de armas, vários lotes de tecidos, como seda, algodão fino, linho e casimira.

O general italiano Mário Carloni se entregou no início da noite, junto com oficiais de seu estado-maior, que foram conduzidos ao comando brasileiro. A ele foi permitido o uso da arma pessoal e do acompanhamento do ajudante de ordens. Carloni foi transferido para Florença, onde o V Exército americano estava baseado, e onde suas regalias foram proibidas. Oficiais italianos entregaram aos brasileiros um cofre com 6 milhões de liras, dinheiro usado na campanha.

O primeiro general alemão
Os trabalhos seguiram até o início da madrugada do dia 30, com uma suspensão de quatro horas. O balanço do dia apontava que no posto de Caiano, onde o rendimento foi concretizado, havia sido realizada a prisão de 4,5 mil alemães e a apreensão de 1,7 mil viaturas e 80 canhões de vários calibres. A apresentação dos prisioneiros ocorreu pela manhã, mas somente no final da tarde é que o general Otto Fretter Pico, acompanhado por 31 oficiais de seu estado-maior, se entregou.

“Encerrava-se, assim, o capítulo da rendição da 148ª DI alemã e de alguns elementos da 90ª Divisão Panzer Granadier e da Divisão Bersaglieri Itália”, diz o relatório. O balanço final contabilizava 14.779 detidos, sendo 10.642 em Gaiano, 2.955 em Felegara e 1.200 em

Respício. Outros 300 militares se apresentaram posteriormente, totalizando 15.079 prisioneiros de guerra, que ajudaram a mudar a história militar brasileira.


TRECHO DE RELATO SECRETO DA FEB

“Cercada inteiramente pelos elementos da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) na região de Caiano-Fornovo Di Taro-Felegara-Neviano, depois da derrota sofrida pela vanguarda em Collecchio, e vendo a impossibilidade de se reunir ao exército alemão em N do Pó, só lhe restava a rendição, que seu comando propôs ao comando brasileiro, após a intimação que lhe fora dirigida pelo Cmt do 6º. RI (Regimento de Infantaria)”


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