Caríssimos,
Não sei o que vocês andam fazendo de matéria, mas minhas duas últimas semanas foram tão intensas que resolvi escrever. Precisava descarregar um pouco. Foram três incursões (Complexo da Maré, Pavão-Pavãozinho e Chapéu Mangueira) e uma única sensação:miserável aquele que tem a favela como único refúgio.
Sentados em frente a uma viatura da Polícia Militar e com as mãos algemadas para trás, três rapazes miram o olhar para minha direção. Com o bloco na mão, finjo que não percebo, aperto o colete à prova de balas no corpo e tento relaxar. No capô do carro, pistolas, fuzis, munição e muita droga - material que supostamente tinha sido apreendido com o trio. Em volta daquele cenário, gente, principalmente crianças. Era o circo na favela. Tinha plena convicção que as provocações e os xingamentos dos moradores aos policiais, acusados de excesso de violência, só progrediam porque eu estava ali. Mesmo que única figura feminina entre os PMs e jornalistas, minha presença delimitava o abismo entre poder e arbitrariedade. Eu era a segurança de que, pelo menos por aquele momento, não haveria retaliação. Confesso que, na hora, pesou um desânimo, uma carga de responsabilidade social tão imensa, que o medo de errar gerou pavor. E se eles realmente não fossem bandidos? E se fossem? E se a apreensão tivesse sido plantada? E se houve negociação? E se amanhã eu encontrar com um deles na estação de metrô? E seu tiver sendo injusta?
Era Nova Holanda, Complexo da Maré, uma das favelas mais violentas do Rio. Local onde a pobreza parece estampar o céu que cobre a comunidade. As casas baixas, os puxadinhos, aumentam a sensação de insegurança de quem se arrisca a atravessar a comunidade. O terreno plano é uma armadilha. Demoro a perceber de quais pontos partem os disparos. Inicia-se, uma sucessão de rajadas e explosões de granadas. O fotógrafo corre e se esconde atrás de um muro. Eu fico de frente para ele, mas do outro lado da rua. Um caveirão passa e, por impulso, eu me jogo no chão. Sempre tenho a sensação de que os policiais, consumidos pela emoção, podem errar a mão e disparar o fuzil sem querer. Passam-se trinta minutos desde o primeiro estrondo. A operação segue e, no chão, já é possível ver o resultado: um rastro de sangue leva a um baleado. Um conhecido fardado passa e sinaliza. É hora de avançar. Alguns metros à frente, uma casa cercada. Três rapazes saem com as mãos para o alto. E o dia prossegue, sem almoço, sem descanso, sem choradeira. Fazer cobertura de operação no Rio é testar os nervos e comemorar a vida sempre que se deixa a favela. É conviver com a parte podre da cidade, é aprender raciocionar rápido, ser objetivo, falar várias línguas. Mas é também amadurecer, conhecer histórias e aprender.
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