terça-feira, 26 de agosto de 2008

ARQUIVOS DE GUERRA

Terceira parte da série de reportagens baseada em documentos secretos da FEB revela que erro tático norte-americano quase provocou massacre de pracinhas em Monte Castelo
Depois da frustração, a conquista



O general João Batista Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), é chamado pelos chefes do Exército americano. Ele vai ao encontro acompanhado pelos generais Euclydes Zenóbio da Costa e Oswaldo Cordeiro de Faria. Horas antes, as tropas aliadas tinham sido repelidas pelos alemães, mais uma vez, em Monte Castelo, onde, por um erro tático dos Estados Unidos, quase todos os combatentes brasileiros foram massacrados pelos inimigos. A terceira parte da série de reportagens baseada em documentos secretos da FEB descreve esse tenso encontro e a reviravolta na sorte dos pracinhas brasileiros.

“Julga que, diante da missão dada à 1ª. DIE (Divisão de Infantaria Expedicionária), que a tropa brasileira tem capacidade ofensiva?”, perguntou o major-general Willis D. Crittenberger, comandante da IV Companhia do Exército americano. O clima fica tenso. “A pergunta foi cruel e decisiva para a sorte da divisão”, afirmou Mascarenhas de Moraes em um dos relatórios secretos sobre a guerra. O comandante brasileiro ainda fez menção de responder, mas Cordeiro de Farias e Zenóbio da Costa interviram e sugeriram que Crittenberger fizesse a pergunta por meio de ofício, o que aconteceu no dia seguinte. O documento foi respondido por nossos generais, que sugeriram uma série de mudanças na tática adotada pelos aliados.

A primeira batalha em Monte Castelo aconteceu em 24 de novembro de 1944. A FEB atuou com o Task Force 45 americano, mas não obteve êxito. “Começávamos a criar assim, a lenda sobre Monte Castelo, que atraía para si o prestígio de posição inexpugnável”, descreveu Mascarenhas de Moraes no relatório. No dia seguinte, um novo combate, outra derrota e cresce o estado de depressão das tropas, repelidas por tanques inimigos.

“Essas duas operações não foram convenientemente preparadas pelo comando americano, que na ansiedade de atacar de qualquer maneira não concedeu o tempo necessário para os reconhecimentos da infantaria e da artilharia”, diz o relatório de Mascarenhas de Moraes. A ação dos aliados fora decidida um mês antes, em uma reunião com todos os comandantes também em Passo de Futa para analisar os insucessos das investidas no eixo Florença-Bologna. A intenção era tomar a região até dezembro, antes da chegada do inverno.

O V Exército americano prometera aos brasileiros a entrega de armas uma semana depois, o que acabou não acontecendo no prazo. Os soldados da FEB não foram suficientemente treinados com os novos equipamentos, o que prejudicou as investidas. “A despeito de todas as providências tomadas, foi o armamento entregue com muito atraso, acarretando sérios prejuízos para a instrução dos 2º e 3º Escalões da FEB, cujas unidades, mal-instruídas e mal adaptadas, eram jogadas atropeladamente para a frente de combate, face a um inimigo que nos dominava por toda a parte, pela vista e pelo fogo”, narrou Mascarenhas de Moraes no relatório.

Ofensiva ampliada
Ao contrário do que esperava Mascarenhas de Moraes, porém, o IV Corpo do Exército americano aumentou a área de atuação da FEB. A ordem de ataque não era mais apenas Monte Castelo, mas também Belvedere e Monte Della Torraccia. “Para o comando brasileiro e sua tropa, a situação era bastante crítica em face da obstinação dos comandos americanos em retomar a ofensiva antes do rigor do inverno, que se aproximava”, descreve o general. Segundo o relatório da FEB, os pracinhas amarguravam uma situação moral e material desoladora. Enquanto parte dos soldados americanos descansava, os militares do Brasil estavam há 80 dias em contato direto com o inimigo.

A investida de 12 de dezembro foi a mais infrutífera. Chovia intensamente às 6h30, horário marcado para o começo dos combates. A falta de visibilidade atrapalhava qualquer avanço e não permitia a ajuda da Força Aérea. Meia hora antes, tiros americanos em um setor vizinho acabaram com o sigilo da missão. Além disso, uma ordem mal-interpretada por um escalão de apoio desorganizou os procedimentos traçados na noite anterior. “O ataque perdeu por completo a impulsão e foi dado por encerrado às 15h, sem alcançar os objetivos e com sensíveis perdas, cerca de 140 baixas, entre mortos e feridos”, diz o relatório. Apenas 4 mil dos 12 mil tiros programados foram disparados.

No relatório de Mascarenhas de Moraes, dois desabafos mostram o estado de espírito dos brasileiros naquele dia: “Foi certamente uma jornada infeliz, onde até os elementos conspiraram contra nós. A experiência na guerra é sempre uma fonte de ensinamentos preciosos. Este combate de 12 de dezembro, certamente o mais espetacular e esquisito insucesso sofrido por nós na Itália, foi prenhe de ensinamentos”. O fracasso também atingiu a tropa, que já estava cansada e sem proteção contra o frio que a cada dia se tornava mais rigoroso. O comandante sentiu, por diversas vezes, a iminência de ver sua divisão completamente destruída, como aconteceu com os portugueses na 1ª Guerra.

Recomposição de forças
Foi justamente devido àquela reunião da noite de 12 de dezembro que a situação dos brasileiros começava a reverter. No ofício enviado ao general Mark Clark, comandante do V Exército, Mascarenhas de Moraes reclamou ao militar dos Estados Unidos da precipitação com que a FEB estava sendo usada. Além disso, pediu 10 dias para reajustar as tropas, além da redução da área de atuação da FEB. Clark, a quem os brasileiros eram subordinados, atendeu os pedidos do chefe da FEB.

No final de dezembro começa a nevar forte na região. Apesar da previsão de reconhecimentos agressivos por parte do inimigo, não houve qualquer ofensiva. A idéia era manter as posições atuais. Até fevereiro de 1945, poucos combates foram realizados pelos brasileiros e, mesmo assim, vários alemães foram aprisionados. O inimigo, entretanto, continuava a atacar. Porém, havia uma determinação para economizar munição, principalmente de canhões e morteiros.

Em 8 de fevereiro, em uma reunião entre os comandantes, são montados os novos planos para outra ofensiva sobre Monte Castelo. Ao contrário do ataque de 12 de dezembro, desta vez as tropas brasileiras atuaram em conjunto com uma divisão de montanha americana. A missão era atacar em direção a Belvedere e Torraccia. A FEB deveria manter também a guarda de uma área conquistada de 18km, além de conquistar Monte Castelo.

A mais importante vitória dos pracinhas aconteceu em 21 de fevereiro. A batalha começou às 5h30m e, às 17h20m, os alemães já estavam praticamente dominados. O objetivo era o mesmo, a tomada de Monte Castelo. O inimigo também queria o local. Porém, os meios eram outros, como definiu o comandante da FEB: “Tropa descansada, eficiente e de maior efetivo, artilharia mais abundante, aviação mais poderosa e com tempo favorável”, analisa Mascarenhas de Moraes em seu relatório.

Arquivos de Guerra: Ultimato e rendição

Depois de batalhas cruentas, a 148ª Divisão de Infantaria Alemã se rende aos pracinhas brasileiros. Dois generais e 15 mil soldados são feitos prisioneiros

Edson Luiz - Correio Braziliense

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Publicação: 26/08/2008 09:43 Atualização: 26/08/2008 09:45

Fornovo, Itália, 28 de abril de 1945

“Para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos incondicionalmente ao Comando das Tropas regulares do Exército Brasileiro que estão prontas para vos atacar. Estais completamente cercados e impossibilitados de qualquer retirada. Quem vos intima é o comandante da Vanguarda Brasileira que vos cerca. Aguardo, dentro de duas horas, a resposta do presente ultimatum.”

Surpreendida pelas tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), a 148ª Divisão de Infantaria alemã nunca imaginaria que faria parte da história militar brasileira. Pela primeira vez, o Exército aprisionou, de uma só vez, dois generais inimigos e cerca de 15 mil soldados. “Cercada inteiramente pelos elementos da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) na região de Caiano-Fornovo Di Taro-Felegara-Neviano, depois da derrota sofrida pela vanguarda em Collecchio, e vendo a impossibilidade de se reunir ao exército alemão em N do Pó, só lhe restava a rendição, que seu comando propôs ao comando brasileiro, após a intimação que lhe fora dirigida pelo Cmt do 6º. RI (Regimento de Infantaria)”, narra um dos relatórios secretos da FEB.

O ultimato às tropas alemãs foi dado pelo coronel Nelson de Mello que, usando um sacerdote católico voluntário para a missão, transmitiu a mensagem para o general alemão Otto Fretter Pico. À meia-noite do dia 29, três oficiais chefiados pelo major W. Kuner chegam ao 6º RI para negociar os termos da rendição. A conversa começa uma hora e meia depois, com o inimigo justificando os motivos que levaram Pico a uma decisão extrema: o esgotamento físico dos soldados, falta de combustível e de recursos para tratar 800 feridos.

“Posteriormente, viemos verificar a improcedência quase total da justificativa, uma vez que no copioso material apreendido existia muita munição e víveres e o número de doentes não atingia 150”, relatou o comandante da FEB, general João Batista Mascarenhas de Moraes. Kuner aceitou os termos fixados pelos brasileiros, mas pediu condescendência para seu comandante e para o general italiano Mário Carloni, da Divisão Bersaglieri Itália. As conversações estavam concluídas no final da madrugada.

Os primeiros prisioneiros chegaram por uma estrada próxima à Ponte Scodogna, em 13 ambulâncias com cerca de 80 inimigos feridos, alguns em estado grave. Uma hora depois, chegam mais oito ambulâncias, com 58 doentes. Os alemães ainda tentaram modificar o horário da entrega das armas, o que não foi aceito pelos brasileiros, segundo os relatórios secretos da FEB. “O fato de estarmos em contato com um inimigo astuto, que podia lançar mão do tempo para outros fins e a urgência que tínhamos em completar a tarefa da rendição para cumprir outras missões já em perspectiva, levaram o comando da divisão a não aceitar a sugestão”, relata o documento de Mascarenhas de Moraes.

Armas depostas
No final do dia, chegava a primeira coluna motorizada, que vinha por uma faixa indicada para a deposição das armas, na estrada 63 (Sarzana-Parma). Vestido de preto, tendo na lapela o desenho de uma caveira sobre duas tíbias cruzadas, símbolo de seu grupo, ele se apresentou como sendo um fregattenkapitan, capitão-de-fragata, e determinou que seus homens começassem a jogar suas armas, que eram lançadas a distância, para que pudessem ser danificadas.

Ao contrário do que dissera o major Kuner, durante as negociações da rendição, as tropas alemãs não pareciam em péssimas condições. Os soldados estavam com bom aspecto físico, bem alimentados e com fardamento e calçados bons. Logo em seguida, vieram a coluna com canhões e morteiros, um grupo de artilharia e uma coluna ligeira de munição. Todos os militares inimigos estavam com boa aparência e entusiasmados, inclusive cantando. O que mais surpreendeu as tropas brasileiras que faziam a guarda dos prisioneiros foi o material encontrado com os alemães. Além de armas, vários lotes de tecidos, como seda, algodão fino, linho e casimira.

O general italiano Mário Carloni se entregou no início da noite, junto com oficiais de seu estado-maior, que foram conduzidos ao comando brasileiro. A ele foi permitido o uso da arma pessoal e do acompanhamento do ajudante de ordens. Carloni foi transferido para Florença, onde o V Exército americano estava baseado, e onde suas regalias foram proibidas. Oficiais italianos entregaram aos brasileiros um cofre com 6 milhões de liras, dinheiro usado na campanha.

O primeiro general alemão
Os trabalhos seguiram até o início da madrugada do dia 30, com uma suspensão de quatro horas. O balanço do dia apontava que no posto de Caiano, onde o rendimento foi concretizado, havia sido realizada a prisão de 4,5 mil alemães e a apreensão de 1,7 mil viaturas e 80 canhões de vários calibres. A apresentação dos prisioneiros ocorreu pela manhã, mas somente no final da tarde é que o general Otto Fretter Pico, acompanhado por 31 oficiais de seu estado-maior, se entregou.

“Encerrava-se, assim, o capítulo da rendição da 148ª DI alemã e de alguns elementos da 90ª Divisão Panzer Granadier e da Divisão Bersaglieri Itália”, diz o relatório. O balanço final contabilizava 14.779 detidos, sendo 10.642 em Gaiano, 2.955 em Felegara e 1.200 em

Respício. Outros 300 militares se apresentaram posteriormente, totalizando 15.079 prisioneiros de guerra, que ajudaram a mudar a história militar brasileira.


TRECHO DE RELATO SECRETO DA FEB

“Cercada inteiramente pelos elementos da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE) na região de Caiano-Fornovo Di Taro-Felegara-Neviano, depois da derrota sofrida pela vanguarda em Collecchio, e vendo a impossibilidade de se reunir ao exército alemão em N do Pó, só lhe restava a rendição, que seu comando propôs ao comando brasileiro, após a intimação que lhe fora dirigida pelo Cmt do 6º. RI (Regimento de Infantaria)”


Leia amanhã o sofrimento no Front

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

ARQUIVOS DE GUERRA

arquivos de guerra
Brava pobreza

Documentos do Exército revelam cruamente como pracinhas brasileiros atormentados por condições precárias de saúde e pelo analfabetismo agiram com heroísmo na 2ª Guerra Mundial

Edson Luiz
Da equipe do Correio

Quando decidiu ir à 2ª Guerra Mundial, o Brasil não conhecia as dificuldades que iria enfrentar. Não apenas à frente dos campos de batalha, mas já a partir da organização de seus contingentes – marcados pelas precárias condições de saúde e sociais de grande parte da tropa. Relatórios secretos dos generais João Batista Mascarenhas de Morais e Eurico Gaspar Dutra, obtidos pelo Correio, mostram a realidade do país entre 1942 e 1945, além do cotidiano dos nossos combatentes. Nos documentos, Mascarenhas de Morais, comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), relata a principal dificuldade enfrentada para tomar o Monte Castelo, um episódio que quase dizimou as tropas brasileiras, mas que acabou tornando-se um dos principais feitos da FEB na Itália.

Além disso, os relatórios mostram outro triunfo dos combatentes da FEB, que foi a rendição de 15 mil alemães, inclusive dois generais inimigos. O pracinha brasileiro, que saiu desacreditado do país, lutou como herói, mas teve que enfrentar as intempéries da Europa.

Enquanto os soldados lutavam na Itália, a situação política interna era grave. Dutra, então ministro da Guerra, apresentou ao presidente Getúlio Vargas o retrato sombrio do país, destacando a reação da população em torno dos problemas causados pelo conflito. Os principais fatos do período serão mostrados na série de reportagens que começa hoje e termina na quinta-feira, com uma apresentação da atual situação de quase abandono dos heróis brasileiros da 2ª Guerra Mundial .


Vila militar, Rio de Janeiro, março de 1844
Arquivo Historico do Exercito


Pouco mais de 5 mil homens estão reunidos e esperando o momento de embarcar para Nápoles. Ali está o perfil do brasileiro da época. Pelo menos, o da classe baixa. Pessoas pobres, com capacidade física precária, vindas de todas as regiões do país. E foi com esse contingente que o Brasil realizou seus principais feitos na Itália: a tomada de Monte Castelo e a prisão de 15 mil alemães, incluindo dois generais. Os relatórios secretos da guerra obtidos pelo Correio mostram que o país não estava preparado para a batalha.

Mesmo com uma população de 42 milhões de habitantes na época, o Brasil teve grandes dificuldades para recrutar o primeiro grupo que iria desembarcar na Europa. Precisou abrir mão de exigências sobre o perfil do efetivo ideal e amargou dificuldades ao preparar esses homens para enfrentar as tropas alemãs e italianas. Mas os relatos feitos pelo comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), general João Batista Mascarenhas de Morais, ressaltam que as dúvidas sobre o potencial combativo desses homens foram aos poucos sendo dissipados pela brava atuação em combate.

Para ir à guerra, segundo os relatórios, os soldados não poderiam ter pés chatos, sofrer de doenças venéreas, de problemas pulmonares e cardíacos e precisavam possuir pelo menos seis pares de dentes articulados. As dificuldades para selecionar homens com o perfil ideal ocorriam em todas as regiões do país, segundo Mascarenhas de Morais.

Ele observou que, para alcançar um número mínimo de recrutados para a guerra, foi necessário abrir mão de algumas exigências. "Estabelecendo as condições mínimas a satisfazer para integrar a FEB, diversas juntas de inspeção, em todas as regiões interessadas, começaram seu penoso trabalho, constatando-se desde logo, as maiores decepções, pela massa de homens, oficiais e praças que nem sequer se classificavam na categoria de 'normais' (a classificação exigida inicialmente era chamada de 'especial', com aptidões físicas excelentes, ficando os 'normais' impedidos de participar da guerra)", descreveu o comandante.

Em seu relatório secreto, Mascarenhas de Morais mostrou, por exemplo, que em São João Del Rey (MG), apenas um capitão, um sargento e um soldado conseguiram a classificação "especial", a exigida para compor a FEB. "O mesmo descalabro se assinalava em todas as outras unidades. Tão calamitosa apresentou -se a situação que a diretoria de saúde recebeu instruções para admitir, também, os homens da categoria 'normal'", escreveu o general. Até a exigência de homens com dente perfeitos, conforme a determinação norte-americana, foi reduzida. "Na organização dos três primeiros escalões que formaram o grosso da nossa 1ª DIE, não levamos em consideração a insuficiência dentária, porquanto não podíamos exigir muito, nesse sentido, da nossa gente, sabido que somente as pessoas de algum recurso, nos grandes centros, tratam dos dentes", afirmou o então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, em um outro relatório enviado ao presidente Getúlio Vargas, em 1944.

Dissabores e vexames
Porém, a redução das exigências traria "amargos dissabores e pesados vexames" na chegada ao exterior, como revelou Mascarenhas de Morais. Ao chegar em Nápoles, os 5 mil combatentes da FEB passaram por uma inspeção de saúde, tendo sido constatada a necessidade de se fazer 20 mil extrações. O relatório do ministro da Guerra complementa: "Das baixas verificadas na Itália ao chegar o 1º Escalão, 70% eram ocasionadas pelas doenças venéreas contraídas no Brasil". Ainda durante a viagem, foram descobertos casos de tuberculose e caxumba.

"Foi grande o trabalho de preparar homens para a guerra, a fim de que o Brasil cumprisse sua palavra empenhada. Os esforços despendidos por nós para preparar 5 mil homens é (sic) bem maior do que outra nação adiantada para organizar um contingente de 25 mil homens. A subnutrição, a falta de higiene e a sífilis, as três em ação combinada com o analfabetismo, são elementos negativantes na formação de qualquer tropa em terras brasileiras", relatou Dutra a Vargas.

O Norte do país, até então uma região desconhecida e com pouca ligação com os grandes centros, foi onde o recrutamento mostrou a realidade do povo brasileiro. De 3.715 homens inspecionados no Amazonas, Pará e nos então territórios do Acre, Rio Branco (hoje Roraima), Guaporé (RO) e Amapá, apenas 846 foram considerados aptos e 77,2% dispensados. "Isto confirma, claramente, o conceito de que o amazônida é um tipo fisicamente fraco já pela sua alimentação já mesmo pelas condições biogeográficas do imenso anfiteatro amazônico", escreveu Dutra.

Dúvidas
Mas não era apenas a Amazônia que apresentava os mais sérios problemas. Minas Gerais, mesmo sendo um dos estados mais importantes do país, teve 77% de seus 4.220 inspecionados considerados incapazes. O maior problema dos mineiros era a insuficiência de dentes. "Há necessidade de uma ação governamental incisiva para combater os males sociais que afligem nossa população: o analfabetismo, o baixo estalão de vida, a alimentação parca e pouco nutritiva, a higiene precária, a sífilis, a lepra e as doenças venéreas", recomendou Dutra a Vargas.

Por causa do perfil, Mascarenhas de Morais contou que havia uma incerteza quanto ao comportamento do soldado brasileiro na Itália, eliminada logo nas primeiras batalhas. "Sua ação em combate, em lugar de ser encarada como um simples dever de cidadão, servia para estimular-lhe a vaidade, tornando-o importante diante de si mesmo, e o levava a se vangloriar de seus feitos", escreveu o comandante da FEB.

Segundo ele, esse fenômeno, que deve ser levado à conta de uma educação falha, não diminuía a sua qualidade de combatente. "Pelo contrário, servia como um incentivo para o seu espírito de corpo, pois sua vaidade o levava a julgar o seu regimento como o melhor da divisão, assim como seu batalhão o melhor do regimento, e assim, sucessivamente, até garantir que o melhor dos batalhões era o seu", observou o general.



arquivos de guerra
Dividido, país entra no conflito

Depois do flerte com a Alemanha, Getúlio finalmente decide ir para a batalha ao lado dos Aliados

Edson Luiz
Da equipe do Correio
O Cruzeiro/EM
Getúlio e a mulher, Darcy, com ministros e autoridades no dia da declaração de guerra: pressão americana funcionou

Pressão do general dutra sobre Getúlio: ou Estados Unidos cedem ao Brasil ou o Brasil continua a negociar — inclusive armas — com o Reich alemão
Palácio do Catete, Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1942

O presidente Getúlio Vargas reúne seu ministério. Em seguida, a decisão: o Brasil entra na guerra. Pouco antes, navios mercantes brasileiros haviam sido torpedeados por submarinos inimigos, com cerca de 600 mortos. "Diante da comprovação dos atos de guerra contra a nossa soberania, foi reconhecida a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras", dizia o comunicado oficial.

A decisão dos brasileiros de apoiar os Aliados (liderados pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha) contra o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) havia sido tomada em conjunto com outros países da América do Sul, em 15 de janeiro do mesmo ano. "A notícia de que o Brasil cortou relações com a Alemanha, Japão e Itália comoveu-me profundamente. Ela assegura-me uma vez mais o apoio do vosso grande país nesta hora de amarga luta contra forças cujas ações e políticas têm sido unanimemente condenadas pelas 21 nações americanas", agradeceu o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt.

Seis dias antes, o Itamaraty recebera em Londres um alerta de que os submarinos inimigos estavam a par da movimentação de navios brasileiros, por meio de informantes infiltrados no continente. "Segundo dados fornecidos ao governo britânico, agentes alemães e italianos, por meio de estações emissoras clandestinas, localizadas no Brasil, Argentina, no Chile e no Equador estariam informando submarinos dos movimentos dos navios aliados na América do Sul", relata o documento confidencial encaminhado ao Estado-Maior do Exército.

A informação era precisa. Nos dias 15, 18 e 25 de fevereiro, os navios Buarque, Olinda e Cabedelo foram torpedeados pelos submarinos alemães e italianos. Morreram 55 pessoas. Mas só depois dos ataques aos navios, uma retaliação alemã, é que o governo decidiu entrar na guerra. Antes, até houve uma pequena aproximação com os alemães, por causa da demora dos Estados Unidos em prestar ajuda econômica ao país, o que acabou acontecendo poucos meses depois. Uma correspondência de 20 de novembro de 1940 entre o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, e Vargas mostra o flerte.

Negociação
"Cabe-me, em conclusão, declarar a V. Excia que da leitura deste relatório mais revigorada sinto a necessidade de prosseguirmos, com todo o afinco, nas tentativas de receber o material encomendado no Reich e que por este país vem sendo posto à nossa disposição, malgrado as tremendas dificuldades que atravessa, dentro dos prazos e das quantidades estipuladas em contrato", narra Dutra, referindo-se a um documento sobre a negociação com os alemães.

Feito o acordo com os Estados Unidos, o Brasil começou a preparar seu efetivo, que iria desembarcar na Itália em 1944. Mas o país também atravessava um período político turbulento. Nas ruas, manifestações contra o regime autoritário de Vargas resultavam em mortes e prisões. O Ministério da Guerra temia que os movimentos chegassem aos soldados e prejudicassem a preparação para a ida à Europa. Por isso, criou um novo serviço de contra-informação, cuja finalidade foi definida em um documento secreto de circulação restrita. "Neutralizar e reprimir quaisquer atividades exercidas por indivíduos ou associações, no sentido de perturbar, por atos ou palavras, a disciplina no interior ou exterior dos quartéis", determinava.

Fora dos quartéis, a guerra aguçava o patriotismo e o imaginário dos brasileiros. Um morador do Rio de Janeiro enviou ao Palácio do Catete um modelo de capacete com as cores da bandeira nacional, sugerindo que ele fosse usado por Vargas e seus auxiliares em solenidades públicas. Da Bahia, um telegrafista identificado apenas como Ezequiel enviou uma carta ao presidente falando sobre as propriedades explosivas da palha de ouricuri, "podendo o caso interessar à indústria de guerra". Bastava transforma-la em pó, dizia o baiano.

O major americano C. Booth também enviou uma carta a Vargas oferecendo uma invenção para os tempos de guerra. Era, segundo o militar, uma mistura de quatro ingredientes domésticos com o açúcar, que se transformaria em uma bomba com poder 40% maior que a dinamite. Os outros componentes Booth manteve em segredo, mas revelou "que podem ser procurados em qualquer drogaria ou casa de secos e molhados". A Diretoria de Material Bélico do Ministério do Exército rejeitou a invenção e vários outros projetos, como os dos aviões lançadores, contra aeronaves inimigas, de óleo quente e de uma rede de aço.

Sem entusiasmo
Dias antes do embarque para a Itália, os soldados brasileiros não mostravam entusiasmo — alguns, inclusive, desertaram para visitar familiares, segundo revelavam relatórios secretos feitos diariamente. Muitos não acreditavam que o Brasil participaria da guerra. "Isto é o efeito da opinião de grande parte da população civil e mesmo de parte dos oficiais do Exército que não estão incluídos na FEB", diz o documento, observando que o trabalho psicológico feito na tropa estava parcialmente neutralizado pelas opiniões das ruas.

As análises dos militares se baseavam na chamada participação "platônica" do Brasil na Primeira Guerra, entre 1914 e 1918, que não passou de realizações de passeatas e manifestações públicas, sem sequer ter ido aos campos de batalha. Avaliações de 1943 mostravam uma população alheia à ida do Brasil à Itália. "Isto ainda está se sucedendo e o nosso povo ainda não está compenetrado de que estamos em guerra", disse Dutra em um relatório secreto enviado a Vargas, em 1944.

Além disso, o povo brasileiro não estava gostando das sanções aplicadas durante o período de guerra. A falta de alimentos em algumas regiões determinou um rigoroso racionamento. "No interior do país, a grita é imensa pela má distribuição de sal e de gasolina", relata Dutra a Vargas. "De outro lado, a sanha dos aproveitadores que, sem se apiedarem do sofrimento alheio, mercadeiam os mais necessários produtos da alimentação popular, explodindo na imprensa daqui e dos estados, constantemente, noticias escandalosas referentes à carne, ao leite, à manteiga, ao peixe, ao carvão e até mesmo à banana."

Na avaliação dos militares, a situação do país afetava o ambiente antes da partida para a Itália. "Tudo isto reflete na ambiência para a guerra, porque uma família não preparada psicologicamente para os sofrimentos decorrentes do estado de guerra, lendo nos periódicos as mais contristadoras notícias tangentes à economia popular, não vê com bons olhos a convocação de um filho para o cumprimento do sagrado dever de defender a pátria", constata Dutra. Da declaração de guerra até a ida para a Itália, foram pelo menos dois anos de preparativos para oito meses de luta — que resultou em 456 mortos.