quarta-feira, 18 de junho de 2008

Guerreiros e Guerreiras:
Leiam esta matéria do meu colega de Correio, Ricardo Miranda. Vale a pena. Muito boa:


Enterro dos jovens do Morro da Providência seqüestrados por militares e entregues a traficantes de uma favela vizinha causa mais protestos na cidade.. Para polícia, tenente idealizou e comandou o "corretivo"
Ricardo Miranda

Publicado no Correio Brasiliense de 17 de Junho de 2008

Rio de Janeiro - Uma grande bandeira verde e amarela salpicada de vermelho, urros de mães encharcadas pela dor, três jovens no início de suas vidas enterrados em caixões de madeira barata, cercados por homens e mulheres divididos entre a perplexidade e a desesperança. E crianças, muitas crianças, treinadas diariamente a odiar o poder público, que só lhes ensina a matemática dos cadáveres e a geografia da exclusão. Ontem, elas encaravam os corpos de seus amigos com muita raiva. Um cartaz emblemático dava o tom: "Exército assassino!".

"Meus Deus, destruíram todos eles", gritava Lílian Gonzaga da Costa, mãe do entregador de pizza Wellington Gonzaga Costa, 19 anos. No sábado de manhã, quando voltava de uma baile funk, o rapaz, junto com os amigos David Wilson Florêncio da Silva, 24, e Marcos Paulo da Silva, 17, foi seqüestrado perto de sua casa, no Morro da Providência, torturado e entregue por homens do Exército a bandidos de uma facção criminosa rival, no vizinho Morro da Mineira. Wellington e David levaram, cada um, cerca de 20 tiros no rosto e no corpo e ficaram desfigurados. Só foram identificados pelas tatuagens ? Wellington tinha as letras WE no braço e David, o rosto de um índia na barriga. Que ninguém se engane: o inconcebível aconteceu no Rio de Janeiro e, mesmo para os aterradores padrões da cidade partida, trata-se de algo com desdobramentos ainda imprevisíveis. "Olha aqui dentro moço, olha o que fizeram com o meu irmão", convidava Bill, os olhos vertendo lágrimas, a foto 3x4 de David lado a lado com o rosto multidilacerado dentro do caixão.

"Vamos pro Exército! Vamos cercar aquilo lá", sugeria alguém, num acesso de cólera. "Olho por olho, dente por dente", conclamava outro, tentando angariar adeptos no mar de olhos vermelhos. O terceiro dia consecutivo de protestos, desta vez em frente ao Comando Militar do Leste (CML), foi também o mais tenso e acabou reprimido com vigor pela Polícia do Exército, que chegou a explodir bombas de efeito moral. Houve correria e algumas pessoas acabaram pisoteadas. Pelo menos um policial ficou ferido, atingido por uma pedrada.

Com os militares catalogados como inimigos, o tráfico deu sua voz de comando e mandou fechar o comércio no entorno da comunidade. Mesmo assim, a quase totalidade das centenas de pessoas que lotaram os corredores de túmulos do cemitério de Botafogo pedia "justiça" e "paz". Acostumados ao massacre diário da polícia e do tráfico, os reféns da comunidade da Providência ainda tentavam entender como o Exército, colocado nas entradas do morro desde novembro passado, para garantir obras de urbanização no local, pôde vestir também a carapuça de vilão. Nenhuma autoridade apareceu no velório ou nos funerais.

Mas duas delas foram especialmente lembradas por quem esteve ali para enterrar seus mortos. "E agora, presidente Lula?", perguntava um cartaz. Candidato favorito de Lula à Prefeitura do Rio, o senador Marcelo Crivella (PRB), autor do projeto Cimento Social, encampado pelo Ministério das Cidades e que justificou a ida do Exército para o morro, também teve seus momentos de fama. "Crivella, pilantra!", gritavam em coro os cordéis que desciam as escadarias do cemitério.

Castigo

Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, o idealizador da entrega dos jovens foi o tenente do Exército Vinícius Ghidetti Andrade, 25 anos. Ele confessou a ação. De acordo com os depoimentos dos militares, o oficial ficou indignado com a decisão do capitão de serviço, que mandou liberar os jovens no sábado. Ao sair da 111ª Companhia de Apoio de Material Bélico, o tenente perguntou aos subordinados se havia nas proximidades um morro dominado por traficantes rivais.

Segundo os militares, a idéia do oficial era aplicar um "corretivo" nos três jovens. Ao chegar à favela, o sargento Maia Bueno, 29 anos, desceu do caminhão e seguiu com as mãos para o alto até os traficantes, onde teria pedido que os jovens recebessem um castigo por terem desacatado os militares. "Não há dúvidas de que eles entregaram os jovens ao Morro da Mineira", afirmou o delegado Ricardo Dominguez, da 4ª DP.

Não havia entre os presentes nenhuma crença na punição dos responsáveis pela morte de David, Wellington e Marcos Paulo. Apesar de a Justiça ter autorizado a prisão de 11 militares ? um oficial, três sargentos e sete soldados.

Na comunidade, os moradores dizem que os três jovens foram, na verdade, vendidos aos traficantes. Mesmo tendo admitido o crime, os militares envolvidos continuavam ontem em prisão administrativa numa unidade do Exército e poderão responder a um IPM (Inquérito Policial Militar) e não pagar por seus atos na Justiça Comum.

"IPM? Isso é uma piada. Prisão em quartel? Isso é castigo de criança", dizia aos berros, um sargento reformado do Exército, Antonio Cerqueira, vizinho dos três jovens mortos. "Meu Deus, vão poupar esses sujeitos depois de eles entregarem três meninos a traficantes como verdadeiros sacrifícios humanos? Eu já tive orgulho de vestir a farda verde-oliva. Hoje tenho nojo, vergonha!", desabafava, sem controlar o choro.

No velório do trio de amigos, parentes e amigos contavam em histórias, lembranças e fotos o que ninguém jamais teve dúvida: de que os três eram jovens trabalhadores, sem qualquer vínculo com grupos criminosos. Suas vidas foram ceifadas na roleta russa da violência carioca. Mãe de Wellington, Lílian lembrava a peregrinação por delegacias antes de descobrir que seu filho fora desovado num aterro sanitário em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. "Você sabe o que é dar um beijo no seu filho e depois descobrir que foi despejado num lixão", consternava-se Lílian.

Avó de Marcos Paulo, Elenita Silva, 64 anos, estava tão dopada por remédios que não sabia sequer quantos netos tinha. Na capela ao lado, outra senhora dava um berro desesperado ao ver o rosto do neto, David. "Não bastaram matar! Desfiguraram meu querido! A maldade era tanta que adivinharam que era um menino vaidoso. O que fizeram com o meu menino bonito?", desesperava-se Isis.

Às 16h30, terminam os funerais. Uma mulher passa e pergunta a um garoto de não mais que 10 anos quem estava sendo enterrado. "Três jovens inocentes", respondeu o menino, sem titubear. Mártires da violência fluminense, David, Wellington e Marcos, seqüestrados, triturados e jogados no lixo, agora descansam em paz, naquele que parece ser o único caminho possível até ela.


Frases

"Ninguém melhor do que as polícias Civil e Militar para lidar com os problemas costumeiros que nós temos aqui"

José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do Rio

"Você sabe o que é dar um beijo no seu filho e depois descobrir que foi despejado num lixão"

Lílian Gonzaga, mãe de um dos jovens mortos


"Não bastaram matar! Desfiguraram meu querido!

A maldade era tanta que adivinharam que era um menino vaidoso"

Isis, avó de uma das vítimas
O inferno astral do Exército
Apesar de ser bem vista pela população, como mostra pesquisa nacional, instituição é afetada por diversas polêmicas recentes, que envolvem de questões indígenas à prisão de homossexuais

Edson Luiz

Da equipe do Correio

Há dois meses, um dos generais mais respeitados do país acirrou o debate sobre a reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. O comandante militar da Amazônia, Augusto Heleno, criticou a forma como a área foi demarcada, começando uma espécie de inferno astral do Exército. A má fase inaugurada ali se agravou poucos dias depois, quando dois sargentos da ativa assumiram a homossexualidade e foram presos. E as notícias ruins continuaram. Na semana passada, um cadete da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) morreu por causa de exercícios físicos forçados. E, como mostrou o Correio na segunda-feira, taifeiros de Brasília denunciam humilhações sofridas nas casas de generais. Os soldados, que têm a função de cozinheiros ou copeiros, são forçados a desempenhar outras tarefas, como fazer faxinas e lavar roupas íntimas. Mas foi no sábado passado, como o episódio do Morro da Providência, que a corporação viu sua imagem ser fortemente abalada, depois de passar mais de 20 anos tentando reconstruí-la, após o fim da didatura. Isso, quatro dias depois de uma pesquisa apontar a instituição como a mais confiável do país.

Nos últimos anos, a imagem do Exército esteve ligada à Amazônia, onde é realizado um trabalho de contato direto com a população, que acolhe e é bem acolhida pela corporação. Porém, com o decorrer do tempo, as Forças Armadas são cada vez mais requisitadas para atuar na segurança pública, uma tarefa que, segundo a Constituição, não é sua. A missão dos cerca de 200 homens enviados ao Morro da Providência era garantir a segurança para a realização de obras de revitalização da área. Mas o saldo foi de três mortos. E, pela primeira vez, desde o regime militar, tropas do Exército se confrontaram com civis e tiveram viaturas atacadas por cidadãos enfurecidos.

Imagem

A imagem do Exército atualmente é exemplar. Segundo pesquisa da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), divulgada na semana passada, a Força conta com 79% de aceitação popular. Isso, no momento em que a instituição é o centro de vários debates, envolvendo temas como a demarcação de terras indígenas e a discriminação a homossexuais. A primeira polêmica começou há dois meses, quando o general Augusto Heleno criticou a demarcação atual da reserva Raposa Serra do Sol. A repercussão causada por suas declarações obrigou Heleno, um ícone dentro da Força, a se calar. A definição sobre o assunto caberá agora ao Supremo Tribunal Federal.

Quando o Exército começava a sair dos noticiários que desgastavam sua imagem, os sargentos Laci de Araújo e Fernando Figueiredo resolveram assumir sua homossexualidade. Ambos foram presos por motivos disciplinares, mas grupos ligados aos direitos humanos acusaram as Forças Armadas de homofobia. Depois, veio a morte do cadete na Aman, a denúncia dos taifeiros e, no sábado, o caso da Providência.

"O Exército, de certo modo, está dando as respostas. Abriu um IPM (Inquérito Policial Militar) e a polícia abriu outro", avalia o coronel da reserva Geraldo Cavagnari, integrante do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, sobre o mais recente episódio que abalou o país. A morte dos três rapazes no Rio trouxe à tona, novamente, a discussão do uso das Forças Armadas na segurança pública. Na sua avaliação, a imagem do Exército deve sobreviver a esse acontecimento. "O trabalho que estava sendo feito era, além de tudo, uma ação social e, por isso, o fato (as mortes) não irá afetar a imagem do Exército", analisa.

O trabalho que estava sendo feito era, além de tudo, uma ação social e, por isso, o fato (as mortes) não irá afetar a imagem do Exército

Geraldo Cavagnari, coronel da reserva